quinta-feira, 22 de maio de 2014

Dez Teses Sobre "Closer - Perto Demais".



I

Closer – Perto Demais exala o sofrimento humano, mas o enredo não trata apenas do amor fluído, precário, mas da falta de domínio sobre os impulsos, na fugacidade da vida. O que fazemos diante de um encontro da alma? Reconhecemos? Tentamos? Largamos uma grande e profunda oportunidade pelo prazer mais tórrido? Amor pela paixão? A responsabilidade – o peso, a dádiva, e o compromisso – de fazer uma mesma escolha sempre diante de milhares de possibilidades.

II

Dan é um escritor fracassado. Talvez, por que a narrativa esteja sendo criada apenas na sua vida. Ao vivê-la como num grande texto, entregou-se aos acontecimentos, sem elaborá-lo em experiência. Por isto, não consegue transformar a ambiguidade em romances. Virou um escravo da sua mania narrativa. Mal pode suspeitar de uma nova brecha para um acontecimento complexo, problemático, e suspeito, para atirar-se de corpo; sabendo, de antemão, dos resultados. Quando conheceu Alice e Anna, ele sabia exatamente o que iria acontecer. Amou, com sinceridade, ambas, mas, enquanto instrumentos para produzir afetivamente um grande caos criador, diante da expectativa do imaculado amor. Voltar para Alice pareceu uma história bastante convincente ao seu instinto, afinal: “quando entrou no meu mundo foi o momento da minha vida”. Reencontrar um grande amor, depois de um intervalo, parecia uma grande história a ser vivida. Mas, tinha uma pedra no meio do caminho (sempre terá): era imaculado? Pensava: “morre a inocência, morre o amor”. Mas, ele sabe melhor do que ninguém que não existe amor inocente. A complexa imaturidade afetiva de Dan é, ao mesmo tempo, irritante e comovente.

III

A juvenil beleza de Alice era, ao mesmo tempo, ardilosa e encantadora. Queria, enquanto não tinha. Sem o elemento sedutor, sentia-se vazia. Era o seu carro-chefe, sua personalidade ambígua e ferina. Predadora... De si, acima de tudo. Ao fracassar na sedução, desatinou-se em amar. Dan foi um ponto fora da sua curva: o fracasso humano. Foram instrumentos, não finalidade. Mas, largar tudo é da sua natureza. Destruía aos poucos sua vida, ao amar em outros: a insuficiência. Sua beleza era um chamariz que flertava com a sedução da ausência. Voltou-se para sedução após o término prematuro com Dan. Consta que, todos os homens amavam as mentiras que saiam por esses doces lábios. Resistir aos encantos das sereias nunca foi tarefa das mais fáceis. Deixou de amor Dan, no exato momento em que ele começou a amá-la de verdade, como num impulso primitivo de sua natureza.

IV

Alice e Dan nunca ultrapassaram a vaidade, e por isto, mostravam-se tão idênticos. Um encontro de almas profundamente parecidas. Pode-se sentir isto ao primeiro olhar. Eles perceberam. Nunca se soube o que era real ou fantasia naquele amor. Enquanto os instintos de ambos, e suas personalidades complexas e catalíticas, não fossem domadas pela consciência moral arduamente construída, nunca se poderia saber.

V

Por sua vez, Larry era um homem prático, dominador, mas não se engane: era um astuto interprete da mente humana. Não se referia à alma, transcendência, fantasia, mas da crueza mais prática, desencantada, e certeira, desse vale de lágrimas que é a vida.  Por isto, depositava poucas expectativas, perdoava, e sabia qual ação deveria ser tomada. Desde que, lhe beneficiasse. Não espere dele, enquanto adversário, grandeza. Em contrapartida, Larry será sempre amado a meio palmo. Seu mundo não tem encanto, mas rugido e promessa de proteção. Sua alma nunca conhecerá o amor profundo e intenso da alma, mas seu corpo rapidamente se deixará levar pela obsessão e vingança. Larry tinha Anna – e a vida prática de casados – como obsessão. Alice foi sua vingança. Ao que parece, teve muitas “vitórias de Pirro” durante sua vida.

VI

Anna era uma artista melancólica. Sua melhor foto não poderia deixar de ser a de um rosto angelical chorando, em momento de dor profunda. Causado por ela, afinal.  Uma produção artística formidável. Seu charme era discreto. Seu fogo era brando. A culpa era seu abrigo. Precisava da infelicidade para ter certeza de quem era, e ficar bem consigo. Um círculo infernal em ser a si mesma.   

VII

Os diálogos entre Larry e Dan são os mais impressionantes e profundos do filme. Não só pelo peso profundo da verdade, mas pelo fato, dos adversários – e opostos –, de certa forma, complementarem-se. Dan acusa a simplicidade de Larry: “você acha que o amor é simples”. Larry acusa a irresponsabilidade de Dan: “você não entende o mais importante do amor, por que você não sabe o que é compromisso”. Sem a verdade, somos animais, pensa Dan. Complemento: mesmo com a verdade, ainda somos animais. E os impulsos comprovam. É a consciência moral, a culpa, o compromisso, a racionalidade, mas também, a mentira, o vício, o erro, que nos diferencia como humanos. Em síntese, a ambiguidade.

VIII

Qualquer pessoa que tenha uma personalidade complexa reconhece imediatamente um encaixe fulgurante, que ultrapassa o corpo e a materialidade. As cenas inicial e final do filme são impactantes por que nos coloca para fora da banalidade, quando todo sentimento afetivo está contaminado pela mais asfixiante mesquinharia, e pelo impulso mais primitivo. Esse nexo entre o banal e o fundamental, o superficial e o profundo, e a dor que daí se segue, é a grande riqueza do filme. Não há grandeza nas lições do filme, mas dor exasperante diante da carência de torna-se algo na elaboração do seu ser.

IX

Algumas coisas, de cara, sabemos que será especial. Ao primeiro olhar. Um reconhecimento indizível. Uma oportunidade única. Um fardo e uma dádiva. Para o bem ou para o mal, o resultado sempre é fruto dos esforços e consciência dos envolvidos. As chances são aproveitadas ou desprezadas

X

Closer – Perto Demais é a síntese da mais rebuscada vaidade, da falta de voz pessoal, num lugar mental pouco saudável, mas fugaz, humano, doloroso, onde só sobrou o impulso, e a dor mais fragmentada e profunda de ser.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Sobre Consumo e Fracasso



Obs.: post inicialmente publicado no facebook, que trata da onda de saques e arrastões que tomou conta da cidade do Recife, no dia 15 de maio de 2014, depois que a PM entrou de greve.

Sobre esse blá blá blá dos “consumidores excluídos”. A esquerda nasce de um vício: considerar o indivíduo uma espécie de massa amorfa que é determinada ou moldada pelo mundo em que vive. Nossa essência seria plástica (o que já é uma contradição em si). Então, para qualquer fato que ocorra, lá está o esquerdista procurando razões no mundo existente que LEVARAM a ação dos indivíduos: a culpa é das estruturas, geralmente. Argumentam como se nunca houvesse responsabilização individual. 

Mas é o seguinte: tão velha quanto à propriedade é o roubo da propriedade alheia. Não tem nada a ver com “exclusão do consumo”, ainda mais num sistema que para funcionar precisou ampliar o mercado consumidor e torná-lo global. Acontece que, a propriedade privada é uma espécie de identidade material. Ora, se algo é seu, necessariamente não é de outro. Isso cria uma delimitação entre você e outra pessoa. Mas, nada impede que alguém ultrapasse essa linha e use da violência para tomar suas posses. E isto é certamente mais velho do que um sistema econômico. Os Visigodos não pilharam Roma por que uma estrutura social malévola e injusta (vocês não podem colocar a culpa no capitalismo cof cof cof) determinou tal decisão, moldou suas ações, seu caráter, etc. 

Deixe-me explicar uma coisa procês sobre algo que o Século XX nos ensinou. Vocês poderiam então me dizer: não é justo que as pessoas tenham coisas diferentes uma das outras, cada um deveria usufruir por igual – se for seu desejo – de cada coisa. Ok. Acontece que, para isto ocorrer, seria necessário um órgão que controle a produção das riquezas e sua distribuição, com um MONSTRUOSO aparato de controle social. Donde se obtém: a) o órgão de controle não pode ser um autômato, mas sim um ente composto por PESSOAS, donde – de partida – já impossibilita a execução da igualdade substantiva; b) ao receber tudo por igual, em situação hipotética, por que os homens iriam produzir, ter sua marca pessoal, personalidade, individualidade, desenvolver sua potencialidade, ao ser diluído numa massa controlada por burocratas gestores? Não adianta reclamar das desigualdades do mundo, pois o seu fim não passa de tese abstrata, que nunca funcionou, nem nunca funcionará, pois é uma impossibilidade lógica EVIDENTE. Ninguém pode negar que o mundo formal das instituições, do estado de direito (com todas as suas perdas, que são muitas), nos garante alguma estabilidade. 

A POBREZA de posses sempre foi a REGRA geral do mundo. Nascemos miseráveis, sem nada, dependentes de nossos progenitores. O capitalismo e o mundo moderno ampliou a fronteira do consumo, e consequentemente, da propriedade. Ao ampliar mercados e ter seu sociometabolismo centrado na produção de mercadorias (materiais ou não), ele apenas colocou um dado do mundo em evidência. Quem sente piedade pela falta de propriedade de certos bens (não essenciais) por parte da população, de cara, já demonstra ser uma personalidade fútil, mesquinha, que enxerga o mundo pelo ângulo da sua régua consumista. 

Dor, choro, tristeza, injustiça, infortúnio, infelicidade, solidão, medo, perda, são elementos que circulam em nossa existência, por sermos incompletos, estarmos entre o ser e o não-ser; mas que na cabeça de um esquerdista, viram produtos de uma astuta e maliciosa estrutura, uma espécie de entidade divina secularizada (a ontologia do ser social iniciada por Marx não passa disso) que só nos sacaneia, impede nossa entrada no paraíso, e nos leva a cometer as mais terríveis atitudes. Neste mundo cru, sem vida ou vento, não há responsabilidade individual, não há drama existencial, nem perplexidade moral. O esquerdismo de hoje não passa de uma revolta niilista e insana contra a estrutura da realidade. Da ontologia do ser social, passando pelo subjetivismo do culturalismo, chegamos à era do “significante vazio”. Por sintoma, a esquerda que reclama da “exclusão do consumo” é a mesma que se agita contra o “consumismo”. Ao querer o paraíso sobre a terra, a esquerda radical só nos tem dado o inferno.

Se existe algo que o 15 de maio nos mostrou foi a desagregação social, a anomia. Quando teve a oportunidade na cessão da repressão, um grupo pequeno, mas suficiente para instalar o caos social, transgrediram as normas que regem a conduta dos homens e asseguram a ordem. Há um vazio no peito dos seres humanos. As intensas transformações nas maneiras de ser, estar, e sentir o mundo, provocadas pelos processos de modernizações, trouxeram bruscas quebras nos valores em comum que sustentam uma sociedade, levando a perda da identidade. Estamos à deriva. O que nos liga? Numa sociedade tão fragmentada, sem comunhão e senso moral, só a repressão pode impedir que alguém atue sistematicamente trapaceando e prejudicando o próximo?

É esta fragilidade que destrói os sonhos do mundo esclarecido dos iluministas. É esta fragilidade que destrói os sonhos do mundo formal e institucional dos liberais. É esta fragilidade que destrói os sonhos das utopias sociais. É esta fragilidade que destrói os sonhos últimos da esquerda em subverter a estrutura da realidade. É esta fragilidade, instalada no coração da modernidade, que destrói os sonhos de todos os seus filhos, instalados numa linha contínua, chamada progresso.

O fracasso é humano, demasiadamente humano.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A Cultura do Repúdio



A Cultura do Repúdio
“When the episteme is ruined, men do not stop talking about politics; but they now must express themselves in the mode of doxa” Eric Voegelin
Quem resolve se aventurar no frontcourt ideológico das redes sociais, não passa despercebido pelo crescimento da rígida cristalização das posições políticas como forma de socialização. A fauna ideológica é ampla. A falta de honestidade intelectual também. Ao demonstrarem posições políticas rígidas, sem a devida reflexão das nuances da realidade, da complexidade das questões levantadas, e tampouco conhecimento do “estado da questão”; certos jovens procuram se inserir num grupo político, geralmente professando doutrinas. É a pressa da opinião. O palpite como auto-rótulo e identificação grupal. Mais ou menos estado na economia? O catecismo está pronto. Pois, só uma solução é possível: menos estado. Ou: mais estado. O receituário farmacêutico para um mundo melhor: basta eliminar o antagonismo, ou seja, os inimigos. Entretanto, tudo que quer dar solução ao mundo sempre termina em cortes de cabeça. Questões abstratas – ou doutrinas – sufocam os problemas concretos de seres humanos reais. Direita e esquerda: essas duas filhas da revolução.
Do que importa o conhecimento, a investigação da realidade, a busca pela verdade? Tudo isto exige trabalho, dedicação, longo prazo. A vida intelectual, em suas camadas mais genuínas, ronda em torno do amor a verdade e do desprezo pela desonestidade. Professar regras, cair em lugares-comuns, usar slogans ideológicos, sem a devida reflexão e maturação de todas as objeções relevantes que foram levantadas, é o exato oposto daquele sentimento. Serve a política (mais mesquinha), e não a vida intelectual. Pode ajudar nas conquistas materiais e imateriais pela identificação com um grupo de pares, mas embota a visão. Contra este “politicismo de tempo integral”, o intelectual deve arejar o ambiente com prudência. Essa forma rígida de socialização é comum ao homem-massa, segundo nos legou teóricos tão diferentes em alguns pontos, como Ortega y Gasset e Theodor Adorno.
O espírito da massa começa no reconhecimento do inflexível repúdio pelos que estão fora (out group). E em sentido mais estrito pode ser inserido num processo mais amplo, que podemos chamar de “cultura do repúdio”. Repudiar o existente; a vida como tal; entediar-se com as agruras do real e aspirar sempre um novo e imediato momento; cair no canto das sereias; mandar tudo às favas e começar de novo; são sentimentos comuns a essa cultura. O repúdio é sempre passional. E uma massa tomada pela emotividade sempre foi em todos os tempos, segundo a deusa-mestra da história, prato cheio para os demagogos.
A cultura do repúdio bebe na mentalidade revolucionária. Pois, esta se define como um estado de espírito, no qual um grupo objetiva remodelar a sociedade, quando não a natureza humana, por meio dos instrumentos políticos. Ao tratar a essência humana como plástica, desejando a refundação do homem e da sociedade, o espírito revolucionário repudia a realidade.
O tempo acelerou-se, o paraíso deslocou-se para terra (pois, as utopias modernas nada mais oferecem do que o paraíso na terra), e agora, a felicidade nos é imposta: seja feliz, sem neuras. Eis, a nova “moralidade” dos nossos tempos: faça aquilo que queira. Em outras palavras, volte a ser criança. A vertigem que nos cerca (nas ruas ou nas redes sociais) recolhe a reflexão, nos tira o tempo para ativar a memória. Transforma-nos em indivíduos artificiais numa massa amorfa. O concreto é suspenso pelo abstrato. A caricatura reina: da verdade, da maturidade, do homem.
A cultura do repúdio é a cultura do esquecimento, pois começar sempre de novo é esquecer daquilo que já se foi. As vivências passadas não se tornam experiências, porque não há mais aprendizado. O que se viveu deve ser esquecido em prol do novo acontecimento. Sem a reflexão do ocorrido, o homem não se torna maduro, pois não acumula mais experiências.
Ao recordar, ativamos a memória e o nosso passado como experiência. Memória dos pecados cometidos. Desejo de reconciliação, tomar a sua vida para si: saber o que se está fazendo. O indivíduo maduro é estável perante os limites da vida, não se deixando levar pelos torvelinhos do sempre novo. Ele balanceia seus impulsos mais imediatos e dissonantes com a racionalidade adquirida com a experiência, equilibrando tensões inerentes ao sujeito. Faltam homens maduros, abundam crianças palpiteiras.
Neste sentido, Ortega y Gasset lembra-nos que a memória é o que diferencia o homem do orangotango. Pois este possui uma memória limitada, tendo dificuldade reconhecer o que se passou no dia anterior, e sendo obrigado a trabalhar com um material mínimo de experiências. Ao não transformar vivência em experiência, o homem – num estranho progresso – vira-se para o estado primitivo do orangotango. Assim, a cultura do repúdio é o rebaixamento do humano ao orangotango. Contra isto, o homem deve ter direito à continuidade, apropriando-se do passado ao aprender com os erros, garantido numa razão histórica que ao reconhecer os erros, aprende com a incompletude e infinitude humana

domingo, 16 de fevereiro de 2014

A Mistificação Da Política E A Sua Destruição



Quem viveu o turbulento inverno de 2013 nas terras tupiniquins não pôde passar despercebido por uma crença coletiva: o povo nos salvará. Os desejos fragmentados, a falta de organização sistemática, o sentimento de negação das estruturas político-partidárias, ao contrário da avaliação geral, apenas confirmaram o paradigma moderno, realçando suas consequências neste processo. Sendo este mais resultado do que sintoma de quebra.

Para um camponês medieval, a vida era passagem, e a felicidade estaria noutro mundo, alcançada por um momento redentor onde poderíamos ser contemplados com o paraíso perdido. Na era moderna, com a secularização, o paraíso desloca-se para terra. "O paraíso terreno é onde eu estou", dizia Voltaire. A política substituiu a religião, e o conceito abstrato de povo tornou-se sagrado. A redenção do mundo se dará política, através da patuleia.

As utopias modernas, mais notadamente o marxismo, prometiam fazer da terra o nosso paraíso. O Comunismo seria o fim da pré-história e começo da verdadeira história da humanidade, nos livrando da alienação, e onde “(me possibilitaria) fazer hoje uma coisa, amanhã outra, caçar de manhã, pescar à tarde, pastorear a noite, fazer crítica depois da refeição, e tudo isto a meu bel-prazer”. A felicidade está ao alcance dos homens e o meio para alcança-la encontrar-se-ia na política. As utopias eram coletivas. A felicidade paradisíaca torna-se um direito, que os homens precisam conquistar através da política, seja institucionalmente ou por meio de uma revolução.

No pós-guerra, com todos os aprofundamentos do moderno (o que chamamos de “pós-modernidade”, “capitalismo pós-industrial”, “modernidade tardia”, etc.), a busca pelo paraíso foi atomizada, fruto da própria lógica interna desse mundo que vai derretendo o que é sólido, como uma escavadeira que faz um túnel numa montanha.

Hoje, poucas pessoas acreditam numa sociedade ideal, de felicidade perene para todos. A busca pela felicidade individualizou-se. As pessoas continuam a procurar o seu paraíso na terra, mas neste só há um bilhete de entrada. A felicidade virou um dever. Um dever pessoal.

Ouvidos atentos ao senso comum e iremos escutar: “faça o que tenha vontade”, “faço o que quero”, “o que vale é se divertir”, etc. É preciso fazer o que se quer para alcançar a felicidade. Dar consequência aos seus desejos; colocá-los em prática para chegar ao paraíso. Tirania da vontade. Homens que buscaram o domínio da natureza e do instinto para construir este imenso cosmos cultural (até o ponto de achar que tudo é cultura), e que encontra o seu retorno por outros meios.

Os desejos impulsivos submetem a consciência do homem contemporâneo, que perdeu a capacidade de tomar a sua vida para si. O homem que não reconhece os seus limites vive a pior das escravidões. Desesperado por cada ato que lhe saia do controle e que lhe prive do gozo, ele não reconhece mais a dor, a perda, a insuficiência, como partes necessárias da vida tão quanto o complemento, a felicidade, a alegria. O paraíso está ao alcance de cada indivíduo, que age impulsivamente de acordo com suas vontades e sem qualquer julgamento moral. Diante disso, não se espanta o crescimento assustador do inverso prático da moral: o moralismo. Primeiro como direito, depois como dever, na era da felicidade obsessiva nunca se viu tanta depressão.

Entretanto, essa atomização não expulsa a política da nossa vida, mas a enreda num tipo de messianismo ainda mais compulsivo e perigoso. A política se tornou a esperança da solução final para nossas vidas. Como nos sentimos infelizes por não ser feliz; por não sabermos mais lidar com os limites da vida e com suas condições inerentes, como a tristeza e a dor, a doença e a decadência, a velhice e a morte, que são vistas como aberrações indesejáveis que deveriam ser evitadas; a insatisfação e o sentimento de que alguém nos boicota se manifesta. Fazer política se tornou atacar um bode expiatório tão fluido e material quanto às artimanhas da ciência.

A política volta como a insuficiência que não nos deixa ser feliz. A política como redentora volta sob meios ainda mais perversos. Não se deseja mais a execução de um projeto político redentor (comunismo, nacional-socialismo, etc.), mas a expressão da própria negação dos limites da vida. Uma micropolítica do dever de felicidade que entra nessa esfera para redimir-se por vias negativas. Você quer tudo, e não obterá nada. E cada vez mais se sentirá angustiado por isso.

A leitura comum dos protestos de julho nos conta que uma massa de pessoas preenchia o vácuo das ruas por aperfeiçoamentos institucionais: melhor educação, saúde, segurança, menos corrupção, e contraditoriamente, menos tributos. Que a massa balbucie contraditoriamente mais direitos e mais Estado com menos impostos e entraves na consecução dos seus desejos; não chama atenção dos especialistas de sempre. Contra e a favor de uma PEC, pedindo menos impostos, ou mais Estado, ou por qualquer outra coisa, todos marchavam acreditando na redenção política, não mais como utopia, mas como entrave da nossa felicidade individual. Cada qual com seu cartaz, cada qual com seu projeto, cada qual com seu bode expiatório. As pessoas se tornavam átomos que nada defendiam em conjunto, apenas se encontrando por terem em comum essa doença que marca o espírito do homem moderno. É preciso consertar o país. É preciso consertar a política. E para isto, o povo nas ruas nos redimirá.

Quando você quer melhorar algo em sua rua, procura os vizinhos, cria uma articulação, resolve o problema ou procura os poderes constituídos para tal. Cria-se uma rede de cooperação em busca de uma melhoria palpável e real. Busca-se resolver o problema específico de fato. Diferente se dar quando o seu objetivo é “mudar o mundo”. Antigamente, a massa dispersa nas ruas ao buscar a consecução de uma utopia política (seja por reforma, ou revolução) ainda guardava os resquícios do velho espírito associativo, havendo interligação entre projeto e ação. Com a diferença de que se amava a humanidade (querendo consertá-la) enquanto odiava-se o próximo e os seus problemas “pequenos”, a base das associações.


A massa amorfa nunca formou um espírito comunitário, por que a base da vontade utópica sempre foi uma espécie de niilismo. A base da associação sempre foi o amor por um homem existente, enquanto a base do espírito utópico sempre foi o amor por um homem futuro, não presente. Dizia Camus: “A revolução consiste em amar um homem que ainda não existe. Mas aquele que ama um ser vivo, se realmente o ama, ele só aceita morrer por ele.” O homem revoltado se rebela contra o mundo por achá-lo injusto, culpando a realidade por nossos limites, por nossa condição humana trágica. No fundo, a revolta do homem moderno é contra sua criação. Ele se vê frustrado diante dos limites humanos, de nossa pequenez, de nossa incapacidade para completude, ao ponto de tornar sua fuga dessa condição um fingimento histérico, negando a existência de uma essência humana. Como argumenta Camus, a não aceitação desta criação é parecida a de um escravo que se revolta. O escravo que se insurge contra o seu senhor, reconhece primeiro este senhor e sua supremacia para poder se revoltar; o homem revoltado reconhece Deus, para poder blasfemar. Conclui Camus sobre o homem revoltado: “Para combater o mal, o revoltado, já que se julga inocente, renuncia ao bem e gera novamente o mal”.

Hoje, a massa encontra-se mais do que nunca dispersa na praça, falando para dentro, ensimesmada, e sem diálogo. Cada qual com seu alívio, buscando remover as pedras que impedem o gozo na marcha da felicidade paradisíaca. Em frente, pelas ruas, como se essa fosse a mais excelsa condição.

Ninguém parece estar disposto a arriscar sua vida por uma utopia coletiva, na busca por um paraíso coletivo na terra, como fruto necessário do caminhar do tempo. Quer-se fazer o paraíso individual aqui, hoje, sem entraves morais, extirpando-se a dor. A ideologia do progresso intensifica-se, pois seu poder não é mais difuso ou concentrado, mas integrado. A tal ponto que, nenhuma leitura diferente do transcorrer histórico seja sequer concebível. Aquilo que existe já não tem necessidade de ser falado.

Talvez, a representação mais clara da presença da ideologia do progresso seja a maneira como olhamos para o passado com desdém.  São frases comuns no debate público: “em pleno século XXI...”, “as coisas evoluem”, “parece coisa do século passado”, etc. Olha-se para o passado como um tempo não memorioso de barbáries, rudezas, e coisas indesejáveis. Alguns sequer imaginam como poderia viver há três ou quinze séculos. As pessoas continuam crendo, mesmo sem acreditar num final paradisíaco da história, que o mundo está em evolução.

O mundo moderno, a democracia, a era dos direitos, a “inclusão social”, é visto numa linha de conquistas da humanidade, encaixando-se as novas batalhas culturais por inclusão nesse processo. Não faltam cientistas políticos para proclamarem: daqui a cinquenta anos, esse será o marco da conquista de tal classe por direitos. O mundo está em progresso. O progredir das leis.

Não se pensa mais em futuro glorioso, por que ele já está INTEGRADO ao nosso senso comum. Esse futuro promissor deixou de ser outro mundo que desejamos, e passou a ser este mundo que já temos. Contra a extensão temporal, temos agora a intensidade, e por isto, a busca individual pelo prazer. O paraíso é nesse mundo e agora, e não em outro totalmente diferente lá na frente. A busca é individual. A ideologia do progresso está integrada em todos os elementos de nossa sociedade globalizada. Dessa maneira, fica mais fácil perceber nossa sentença introdutória: vivenciamos uma crise espiritual e material com a extrapolação do moderno, e não com sua quebra.

O que poucos imaginam é que talvez não vivamos tão bem assim. O mundo moderno impõe um número de obrigações materiais (cada vez mais crescentes) que seria inadmissível para um homem que vivesse no Século X. Fora isto, nunca se viu tanta pressão do meio social. Ter uma profissão, ter uma vida de classe média, obter tais objetos, ter filhos, proporcionar aos filhos tal padrão, ganhar respeito. Expectativas depositadas em qualquer criança desde o primeiro segundo da descoberta da fecundação. Junto com elas, crescem desde cedo as obrigações: aulas de inúmeras línguas, horários para aula de música, escola, etc. Um conjunto de pressões externas ao ser eu, impostas pela sociedade, que nem de longe se equipara a atmosfera de liberdade que se desfrutava na antiguidade ou idade média.

O homem vai perdendo seu equilíbrio emocional, por que há uma cisão entre o seu eu  interior e o que se deve fazer. É um paradoxo da modernidade e da modernização que, ao mesmo tempo de que o homem domina mais e mais a natureza e obtêm conquistas técnicas formidáveis, encontra-se submetido a um forte estado de privação, cheio de pressões e exigências. Não há melhor, nem pior. Se obtivermos importantes conquistas materiais com o mundo moderno, também perdemos muitas coisas. Uma simples desobediência ao relógio pode destruir sua vida. Hora perdida pode significar perda do emprego, e este, ausência, expulsão da convivência com um círculo de colegas ou amigos de trabalho. Um simples relógio pode te privar de uma rede de conexões sociais, levando-te para o ostracismo.

Ao contrário do que se pensa, o peso da tradição era mais um cimento do meio social do que um poder obsessivo, sendo formado por um conjunto pequeno de imposições microssociais. Buscando o prazer, tendo a felicidade como dever, sendo achatado pelo excesso de direitos e deveres e de imposições sociais e materiais: eis, o diagnóstico da loucura atual. Com isto, não queremos dizer que viver na Roma invadida pelos bárbaros seja melhor ou pior do que temos hoje. Simplesmente são diferentes. O tempo circula, e a intensidade varia. É próprio da ideologia do progresso crer que nossa vida está cada vez melhor, com instituições aperfeiçoadas, com quebras de preconceito, e tudo mais. O mito croceano nada nos revela, senão uma progressão jurídica, ao invés de uma progressão na história social. Mas este é um assunto que deixaremos para depois.