Mulheres,
cigarros, bebidas, e quem sabe, uns “entorpecentes” como o Rock n’ Roll. A boa
e velha boemia parece cada vez mais distante do futebol moderno, rígido na
exigência da condição física privilegiada. Assim como, as astúcias na relva
verde (um empurrão ali, um braço esticado, uma porradinha quando necessária)
parecem ter virado coisa do passado, na contramão da profissionalização. No
entanto, os craques sempre deram seu jeito. Fora ou dentro de campo. Porque
muito além de um espetáculo plastificado, em condições fabris prontas para o
comércio das emoções, o futebol é – e continuará sendo – um jogo coletivo, de
contato, com ritos tribais, que inspiram tradição, compromisso, lealdade, e
dignidade.
Quem já jogou
uma única partida de ludopédio na rua ou nos gramados sabe que não se deve
lealdade as normas da plateia, a indústria dos bons comportamentos do “politicamente
correto”, mas ao seu grupo, sua tribo, pois é nela que se constitui sua
identidade no momento mesmo de comunhão com o outro. Assim, no goleiro,
deposita-se toda confiança na nobre arte de não deixar vazar sua meta. Do
atacante, espera-se a bravura dos heróis, que se atira contra o inimigo para
vazar suas redes. Todos possuem uma função. Todos confiam um no outro, e todos
sabem que os outros lhe depositaram a confiança. Por isto, não há esporte
coletivo sem entrega. A maior – e única
profunda – indignidade que pode haver dentro de um campo de futebol é a apatia.
Um jogador que não se entrega em campo, que não demonstra vontade ou brilho nos
olhos, é um canalha na mais precisa das definições. Pois, não pode haver
maior falta de respeito aos seus companheiros, a confiança dada, e a deusa
bola, por quem corremos a entregar nossos presentes, crentes por uma dádiva; do
que a indiferença.
Praticamente
todas as cosmogonias a que temos conhecimento começaram num grandioso embate,
gerador do nosso mundo e da realidade. E desta origem ao fim do mundo, a ideia
de guerra nos atravessa. Assim, no próprio mito de fundação carregam-se todos
os elementos da inevitável queda, o fenecimento por um embate: vida, glória,
morte e tragédia estão interligadas. A guerra é mítica. E os esportes coletivos funcionam como uma espécie de metáfora da
guerra. Uma equipe de indivíduos uniformizados, prontos a competir contra
outra, esperando vencer a batalha de acordo com os objetivos do jogo, diante de
uma plateia de amigos ou inimigos. Qualquer
esporte possui os seus rituais. E o hino cantado antes dos jogos de uma Copa do
Mundo, por exemplo, nos rememora o senso de pertencimento a um povo, clamando a
luta para defesa da honra com seus iguais. Os jogos sempre foram ritualísticos,
significando luta, bravura, lealdade aos seus iguais, respeito pela tradição. Mas,
pode significar também uma luta íntima: da dignidade e lealdade que o campo
impõe contra o medo, a fraqueza e as dúvidas. Rúgbi, futebol, basquete,
handebol, polo aquático ou qualquer outro jogo coletivo: a metáfora tribal é a
mesma.
Acontece que, o
homem – como a vida – é ambivalente, não sendo só constituído na vida material
de uma só coisa. Se nos sentimos mais seguros, livres e tranquilos no mundo
moderno das instituições; precisamos – também – dar vazão aos nossos impulsos
(às vezes, os mais inatos), massacrados por tantas camadas de cultura. Se
antes, a guerra tinha caráter sagrado, de demonstração de bravura nas conquistas,
cumprindo uma função social; ela foi dissolvida no monótono mundo das
formalidades institucionais, onde a banalidade nos assegura mais liberdade e
conforto. Mas, como qualquer elemento da nossa vida ambivalente, ela retorna de
outras maneiras. Por isto, precisamos de um descanso da normatividade, para
rebeldia mediada dos impulsos. E os esportes coletivos fazem esta ponte entre
civilização e barbárie, razão e impulso. Sem este sopro, o retorno do recalque
do que há de violento no homem transfigura-se em perversão, indo das mais sutis
(como a sonsice) às mais perigosas (como o sadomasoquismo).
No entanto, o
futebol também é parte de nossa vida moderna, possuindo expectativas de conduta
socialmente mediadas, um conjunto de regras escritas a ser impostas pelo árbitro,
além de ser um produto exposto à venda. E nesta ambiguidade mora a sua essência:
uma disputa entre os impulsos e a razão, entre a comunidade e a sociedade,
entre o tribal e as instituições, entre nossa liberdade ensimesmada e nossa
liberdade de ver os outros. Neste sentido, por sua incerteza e comoção, o
futebol é o mais dionisíaco dos esportes. Dentro de um campo de futebol, não há
compromisso formal, leis civilizatórias, mas só a vida do espírito, profundo
sentido de existir, sem abstrações. Criando um código próprio de condutas.
Por isto que,
jogadores polêmicos tornam-se sempre personagens centrais do jogo. Pois, eles
nos trazem um sopro de humanidade, espontaneidade, vida real, e não uma conduta
esperada, plastificada. O futebol foi
feito para alcançar sua quintessência na paixão das personalidades complexas.
Heleno de Freitas era um boêmio, egocêntrico como qualquer artilheiro que se
preze, era admirador das mulheres, das boas bebidas, de um bom jazz, e de
Dostoiévski. Heleno era o próprio excesso: desmedida de personalidade,
desmedida de impulso. E graças a isto, encantou em campo (com dor, gozo, paixão
e suor), a ponto de virar personagem de Garbo. Como um herói trágico, foi das
grandes glórias ao fundo do poço. Morreu em ruínas, num sanatório, sofrendo de
sífilis. Sobre ele, Armando Nogueira dizia: “O futebol heroico e elegante de
Heleno de Freitas despertou em mim a paixão pelo futebol. Avassaladora paixão
da qual, com a graça de Deus, jamais hei de me curar. Heleno de Freitas foi a
personalidade mais fascinante e também a mais dramática que conheci nos
estádios".
Quem via aquele
menino norte-irlandês de 1,78, a zombetear de toda defesa adversária com seus
dribles desconcertantes, encantava-se. George Best era a própria provocação em
campo. Partia para cima das defesas adversárias, com tal destemor do fracasso
(a bola roubada), da mesma maneira que se entregava a vida sem tino, nas noites
de bebidas, cigarros e mulheres. Reza a lenda que o mito conseguiu resolver
sozinho uma peleja de ludopédio, mesmo estando visivelmente bêbado. Quem sabe,
tenha até jogado melhor.
O que falar
então de Almir Pernambuquinho? Almir fazia jus a fama de destemido e bad boy.
Ele foi protagonista da maior briga da história do Maracanã. Na final carioca
de 1966, Almir desconfiava que o juiz e alguns companheiros de sua equipe, o
Flamengo, tinham sido subornados pelos Andrades, reis do jogo do bicho, e administradores
do Bangu. O jogo começa, e dois de seus companheiros saem de campo depois de
entradas criminosas do adversário, em que o juiz nada deu. O seu goleiro toma
gols esquisitos, e Ladeira, atacante do Bangu, agride Paulo Henrique, beque do
Flamengo, sem que o juiz nada faça. Almir não teve dúvidas, e indignado, partiu
para a porrada, tendo seu nome entoado fanaticamente por sua torcida. Assim,
ele protagonizava a maior peleja da história do mítico estádio. Almir morreu em
1973, defendendo atores-bailarinos do grupo “Dzi Croquetes” que estavam sendo
agredidos por portugueses asquerosos, num bar de Copacabana. O destemido
atacante morreu sendo o que era.
Seja como for,
são estes indivíduos errantes, repletos de ambiguidade e complexidade, que dão
alma e luz a opacidade da vida, sendo parte da própria essência do jogo. Pois,
o futebol não ensina regras, não ensina leis, ou coisas formais e abstratas, ele
não é normativo. O futebol é mais
carne-viva, paixão, surpresa, irrupção de um momento, breve reconciliação com a
natureza. Qual a diferença do craque para nós, reles mortais? Os craques anteveem
a jogada, e por impulso, sabem o que deve ser feito, e fará bem feito. Os craques congelam o tempo, intuem a
verdade da bola, e elabora sua magia tecendo uma narrativa de imagens
esplendorosas. Em certo sentido, os craques são o inverso da civilização,
pois não se dobram as camadas sociais, ou a massificação da cultura, ao mostrarem
todo seu brilho e elegância, nos distinguindo deles. A igualdade não foi feita
para o craque.
Porque no nosso
mundo cotidiano, trivial, banal, precisamos de instituições democráticas que freiem
a radicalidade do poder, pois a vida em sociedade exige prudência. Não no campo.
Lá, o craque é despudor de talento. O futebol é arte, e por isto mora nas dobras do mundo, entre o ser e o não-ser, podendo apresentar em centelhas
tão rápidas como um drible de Mané Garrincha, vislumbres de nossa condição
paradisíaca.
O futebol não
te diz “siga essa regra: não matarás”, mas ensina na prática o sentido mais
profundo da existência, na dignidade e lealdade reconquistadas com os seus
companheiros e adversários. Pois, também não há maior honra, dignidade, e
demonstração de respeito do que o fato de ter alguém a se empenhar em te
vencer. A dignidade da competição. Por
isto, Camus dizia: "Tudo quanto sei com maior
certeza sobre a moral e as obrigações dos homens devo-o ao futebol”.

Erros podem e devem ser punidos, de preferência dentro de
campo, ou entre os jogadores. Mas, o que os engravatados da FIFA (que nunca
chutaram uma bola na vida e nada compreendem da dignidade e lealdade do jogo)
fizeram é um estúpido ato de covardia, seladas por uma pena desproporcional. Porque ontem, hoje, e amanhã, o que os
burocratas de plantão – apaixonado por si e suas funções – sempre almejam é só
uma coisa: pôr fim a ambivalência da vida, entregando toda esta na certeza
formal do preto no branco. Contra os burocratas de
plantão, que matam o futebol em sua essência, precisamos resgatar o seu sentido
mais real e profundo. O futebol não merece ver Luisito tanto tempo longe, pois
ele é parte da essência do futebol. Mesmo no erro, Luisito é um bravo, um forte,
um homem digno, que honra o esporte bretão. Ao invés disso, deveríamos
punir, com o nosso desprezo (tornemos os burocratas de plantão insignificantes),
os apáticos. Estes sim, os verdadeiros e grandiosíssimos hijos de puta.
Senhores, não tirem do futebol a ambivalência da vida.
Senhores, não
tirem de nós essas personalidades complexas, errantes, que moram numa “zona
cinzenta”. Senão, vocês estarão nos tirando o próprio futebol.
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