sexta-feira, 27 de junho de 2014

Os "Marginais" Da Bola Contra Os Burocratas De Plantão: em defesa do futebol.



Mulheres, cigarros, bebidas, e quem sabe, uns “entorpecentes” como o Rock n’ Roll. A boa e velha boemia parece cada vez mais distante do futebol moderno, rígido na exigência da condição física privilegiada. Assim como, as astúcias na relva verde (um empurrão ali, um braço esticado, uma porradinha quando necessária) parecem ter virado coisa do passado, na contramão da profissionalização. No entanto, os craques sempre deram seu jeito. Fora ou dentro de campo. Porque muito além de um espetáculo plastificado, em condições fabris prontas para o comércio das emoções, o futebol é – e continuará sendo – um jogo coletivo, de contato, com ritos tribais, que inspiram tradição, compromisso, lealdade, e dignidade. 

Quem já jogou uma única partida de ludopédio na rua ou nos gramados sabe que não se deve lealdade as normas da plateia, a indústria dos bons comportamentos do “politicamente correto”, mas ao seu grupo, sua tribo, pois é nela que se constitui sua identidade no momento mesmo de comunhão com o outro. Assim, no goleiro, deposita-se toda confiança na nobre arte de não deixar vazar sua meta. Do atacante, espera-se a bravura dos heróis, que se atira contra o inimigo para vazar suas redes. Todos possuem uma função. Todos confiam um no outro, e todos sabem que os outros lhe depositaram a confiança. Por isto, não há esporte coletivo sem entrega. A maior – e única profunda – indignidade que pode haver dentro de um campo de futebol é a apatia. Um jogador que não se entrega em campo, que não demonstra vontade ou brilho nos olhos, é um canalha na mais precisa das definições. Pois, não pode haver maior falta de respeito aos seus companheiros, a confiança dada, e a deusa bola, por quem corremos a entregar nossos presentes, crentes por uma dádiva; do que a indiferença.

Praticamente todas as cosmogonias a que temos conhecimento começaram num grandioso embate, gerador do nosso mundo e da realidade. E desta origem ao fim do mundo, a ideia de guerra nos atravessa. Assim, no próprio mito de fundação carregam-se todos os elementos da inevitável queda, o fenecimento por um embate: vida, glória, morte e tragédia estão interligadas. A guerra é mítica. E os esportes coletivos funcionam como uma espécie de metáfora da guerra. Uma equipe de indivíduos uniformizados, prontos a competir contra outra, esperando vencer a batalha de acordo com os objetivos do jogo, diante de uma plateia de amigos ou inimigos.  Qualquer esporte possui os seus rituais. E o hino cantado antes dos jogos de uma Copa do Mundo, por exemplo, nos rememora o senso de pertencimento a um povo, clamando a luta para defesa da honra com seus iguais. Os jogos sempre foram ritualísticos, significando luta, bravura, lealdade aos seus iguais, respeito pela tradição. Mas, pode significar também uma luta íntima: da dignidade e lealdade que o campo impõe contra o medo, a fraqueza e as dúvidas. Rúgbi, futebol, basquete, handebol, polo aquático ou qualquer outro jogo coletivo: a metáfora tribal é a mesma.

Acontece que, o homem – como a vida – é ambivalente, não sendo só constituído na vida material de uma só coisa. Se nos sentimos mais seguros, livres e tranquilos no mundo moderno das instituições; precisamos – também – dar vazão aos nossos impulsos (às vezes, os mais inatos), massacrados por tantas camadas de cultura. Se antes, a guerra tinha caráter sagrado, de demonstração de bravura nas conquistas, cumprindo uma função social; ela foi dissolvida no monótono mundo das formalidades institucionais, onde a banalidade nos assegura mais liberdade e conforto. Mas, como qualquer elemento da nossa vida ambivalente, ela retorna de outras maneiras. Por isto, precisamos de um descanso da normatividade, para rebeldia mediada dos impulsos. E os esportes coletivos fazem esta ponte entre civilização e barbárie, razão e impulso. Sem este sopro, o retorno do recalque do que há de violento no homem transfigura-se em perversão, indo das mais sutis (como a sonsice) às mais perigosas (como o sadomasoquismo).

No entanto, o futebol também é parte de nossa vida moderna, possuindo expectativas de conduta socialmente mediadas, um conjunto de regras escritas a ser impostas pelo árbitro, além de ser um produto exposto à venda. E nesta ambiguidade mora a sua essência: uma disputa entre os impulsos e a razão, entre a comunidade e a sociedade, entre o tribal e as instituições, entre nossa liberdade ensimesmada e nossa liberdade de ver os outros. Neste sentido, por sua incerteza e comoção, o futebol é o mais dionisíaco dos esportes. Dentro de um campo de futebol, não há compromisso formal, leis civilizatórias, mas só a vida do espírito, profundo sentido de existir, sem abstrações. Criando um código próprio de condutas.

Por isto que, jogadores polêmicos tornam-se sempre personagens centrais do jogo. Pois, eles nos trazem um sopro de humanidade, espontaneidade, vida real, e não uma conduta esperada, plastificada. O futebol foi feito para alcançar sua quintessência na paixão das personalidades complexas. Heleno de Freitas era um boêmio, egocêntrico como qualquer artilheiro que se preze, era admirador das mulheres, das boas bebidas, de um bom jazz, e de Dostoiévski. Heleno era o próprio excesso: desmedida de personalidade, desmedida de impulso. E graças a isto, encantou em campo (com dor, gozo, paixão e suor), a ponto de virar personagem de Garbo. Como um herói trágico, foi das grandes glórias ao fundo do poço. Morreu em ruínas, num sanatório, sofrendo de sífilis. Sobre ele, Armando Nogueira dizia: “O futebol heroico e elegante de Heleno de Freitas despertou em mim a paixão pelo futebol. Avassaladora paixão da qual, com a graça de Deus, jamais hei de me curar. Heleno de Freitas foi a personalidade mais fascinante e também a mais dramática que conheci nos estádios".

Quem via aquele menino norte-irlandês de 1,78, a zombetear de toda defesa adversária com seus dribles desconcertantes, encantava-se. George Best era a própria provocação em campo. Partia para cima das defesas adversárias, com tal destemor do fracasso (a bola roubada), da mesma maneira que se entregava a vida sem tino, nas noites de bebidas, cigarros e mulheres. Reza a lenda que o mito conseguiu resolver sozinho uma peleja de ludopédio, mesmo estando visivelmente bêbado. Quem sabe, tenha até jogado melhor.

O que falar então de Almir Pernambuquinho? Almir fazia jus a fama de destemido e bad boy. Ele foi protagonista da maior briga da história do Maracanã. Na final carioca de 1966, Almir desconfiava que o juiz e alguns companheiros de sua equipe, o Flamengo, tinham sido subornados pelos Andrades, reis do jogo do bicho, e administradores do Bangu. O jogo começa, e dois de seus companheiros saem de campo depois de entradas criminosas do adversário, em que o juiz nada deu. O seu goleiro toma gols esquisitos, e Ladeira, atacante do Bangu, agride Paulo Henrique, beque do Flamengo, sem que o juiz nada faça. Almir não teve dúvidas, e indignado, partiu para a porrada, tendo seu nome entoado fanaticamente por sua torcida. Assim, ele protagonizava a maior peleja da história do mítico estádio. Almir morreu em 1973, defendendo atores-bailarinos do grupo “Dzi Croquetes” que estavam sendo agredidos por portugueses asquerosos, num bar de Copacabana. O destemido atacante morreu sendo o que era.

Seja como for, são estes indivíduos errantes, repletos de ambiguidade e complexidade, que dão alma e luz a opacidade da vida, sendo parte da própria essência do jogo. Pois, o futebol não ensina regras, não ensina leis, ou coisas formais e abstratas, ele não é normativo. O futebol é mais carne-viva, paixão, surpresa, irrupção de um momento, breve reconciliação com a natureza. Qual a diferença do craque para nós, reles mortais? Os craques anteveem a jogada, e por impulso, sabem o que deve ser feito, e fará bem feito. Os craques congelam o tempo, intuem a verdade da bola, e elabora sua magia tecendo uma narrativa de imagens esplendorosas. Em certo sentido, os craques são o inverso da civilização, pois não se dobram as camadas sociais, ou a massificação da cultura, ao mostrarem todo seu brilho e elegância, nos distinguindo deles. A igualdade não foi feita para o craque.

Porque no nosso mundo cotidiano, trivial, banal, precisamos de instituições democráticas que freiem a radicalidade do poder, pois a vida em sociedade exige prudência. Não no campo. Lá, o craque é despudor de talento. O futebol é arte, e por isto mora nas dobras do mundo, entre o ser e o não-ser, podendo apresentar em centelhas tão rápidas como um drible de Mané Garrincha, vislumbres de nossa condição paradisíaca.

O futebol não te diz “siga essa regra: não matarás”, mas ensina na prática o sentido mais profundo da existência, na dignidade e lealdade reconquistadas com os seus companheiros e adversários. Pois, também não há maior honra, dignidade, e demonstração de respeito do que o fato de ter alguém a se empenhar em te vencer. A dignidade da competição. Por isto, Camus dizia: "Tudo quanto sei com maior certeza sobre a moral e as obrigações dos homens devo-o ao futebol”.

Agora, em plena Copa do Mundo, assistimos ao triste espetáculo da perseguição pública a um jogador de brio, Luisito Suárez, que vive em sua paixão, dor, glória e erros, a tradição de Heleno de Freitas, Almir Pernambuquinho, Romário, George Best, Edmundo, Gattuso, e tantos outros. Uma mordida não é a conduta mais digna perante o jogo, porque se o contato mais firme, a disputa de bola, a valentia, e até socos e pontapés, fazem parte da realidade da disputa; uma mordida ou uma cuspida são gestos pequenos, mas insultuoso no ambiente futebolístico. Entretanto, o futebol é feito também pelos excessos de indivíduos errantes, que ultrapassam os limites do respeito pela desmedida de compromisso. Ao errar, Suárez nada quis além de provocar o adversário e proteger sua equipe e companheiros. Como o doping de Almir, a virilidade de Gattuso, a malandragem de Romário, la mano de dios de Maradona, são excessos de personagens marcantes, que fazem da sua vida o próprio símbolo da ambivalência.

Erros podem e devem ser punidos, de preferência dentro de campo, ou entre os jogadores. Mas, o que os engravatados da FIFA (que nunca chutaram uma bola na vida e nada compreendem da dignidade e lealdade do jogo) fizeram é um estúpido ato de covardia, seladas por uma pena desproporcional. Porque ontem, hoje, e amanhã, o que os burocratas de plantão – apaixonado por si e suas funções – sempre almejam é só uma coisa: pôr fim a ambivalência da vida, entregando toda esta na certeza formal do preto no branco. Contra os burocratas de plantão, que matam o futebol em sua essência, precisamos resgatar o seu sentido mais real e profundo. O futebol não merece ver Luisito tanto tempo longe, pois ele é parte da essência do futebol.  Mesmo no erro, Luisito é um bravo, um forte, um homem digno, que honra o esporte bretão. Ao invés disso, deveríamos punir, com o nosso desprezo (tornemos os burocratas de plantão insignificantes), os apáticos. Estes sim, os verdadeiros e grandiosíssimos hijos de puta.

Senhores, não tirem do futebol a ambivalência da vida.


Senhores, não tirem de nós essas personalidades complexas, errantes, que moram numa “zona cinzenta”. Senão, vocês estarão nos tirando o próprio futebol.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

A Ambivalência Da Vida, Os Sentimentos Que Circulam E A Literatura



“Neste bisonho dai' de mágoas horrorosas,
Em que o fastio e a dor perseguem o mortal,
Feliz de quem puder, numa ascensão ideal,
Atingir as mansões ridentes, luminosas!

De quem, pela manhã, andorinha veloz,
Aos domínios do céu o pensamento erguer,
— Que paire sobre a vida, e saiba compreender
A linguagem da flor e das coisas sem voz!”

Elevação. Charles Baudelaire, in: Flores do Mal.
I

Hora de despertar. Os olhos põem-se a abrir. Com a cara amassada de sono e indolência, Ulisses passa a ponta dos dedos demoradamente em suas pálpebras. O ritmo cansado do corpo fala por si: um longo suspiro ao acordar. Parece não acreditar que, agora, o dia novamente tinha começado. Tortuoso era ter que olhar o relógio: já eram 16 horas da tarde. As fartas e grossas cortinas impediam qualquer claridade naquele pequeno quarto. No presente, o escuro era a morada da sua alma. Faltavam-lhe cores.

Primeiro pensamento do dia lhe era sempre recorrente: o seu mais recente fracasso. Ulisses era uma criança tímida, introvertida, sentia-se humilhado pela veneração que fazia de si mesmo. O menino cresceu, quis poder e dinheiro. E conseguiu. Montou um império com suas empresas de tecnologia. Agora, Ulisses era um rei. E no seu reino, todos em sua volta lhe bajulavam. Ele era o sustento da família, era o sedutor de todas as mulheres ávidas por seu poder. Ulisses transpirava o sucesso. Todos lhe davam atenção, menos um mendigo recorrente na porta do seu prédio, e que nunca lhe pedia dinheiro, mas só balbuciava: quem és tu? Quem és tu? Quem és tu?

Ulisses estava no auge do prazer pessoal. Distribuía dinheiro para os familiares, certificando-se que se manteriam bem longe. A cada noite, duas, três, quatro novas mulheres. Ulisses era a própria desmedida. Embriagado pelos elogios, pelo poder, pela arrogância, descuidou-se dos negócios, e a sua empresa não mantinha mais o mesmo ritmo frenético de sua vida pessoal. Mal pôde abrir os olhos, e tudo já se encontrava no chão, nada restava além de ruínas. E agora: o que fará?

Ao venerar o dinheiro, o poder, e principalmente, a si mesmo identificando-se nestes, Ulisses perdeu a si próprio. Sua vida era uma fuga, um símbolo fugaz e escorregadio, e agora, só com os cacos em mão, encontrava-se em estado de paralisia. Ulisses era o próprio Gregor Samsa, personagem de A Metamorfose de Kafka, um caixeiro-viajante a sustentar toda casa e que, de repente, numa manhã, ao acordar para o trabalho, transforma-se num inseto. Outras metamorfoses vão ocorrendo: o pai e a irmã arranjam um emprego, e a família passa a alugar quartos na casa onde habitam. Deixar de depender de Gregor irá alterar os comportamentos e os sentimentos de quem estava ao seu redor. Antes, era o centro da vida de diversas pessoas, sentia-se agora, um peso para todos.

Para enganar o tédio da espera, Ulisses saca um cigarro, e põe-se a pensar. Ele experimentava a sensação de estar perdido: noutro corpo, noutro local, noutro animal. Decepcionado, depressivo, ainda preso a si, ele não conseguia fazer uma autocrítica da sua vida. A barriga roncava de fome, mas sua atenção estava presa ao teto de sua casa, com quem dialogava em tom professoral:

- Morremos muitas vezes antes que aquela estimada donzela, a morte, nos dê o xeque-mate. Se vivemos agora mais do que em qualquer outra era, é para apreciar as outras tantas mortes em vida. Viver mais, para morrer melhor. Você também vai fenecer.

Na última vez que saiu de casa, Ulisses ficou ainda mais alterado ao tentar lidar com a papelada que resolveria juridicamente a falência de sua empresa. Preenchia papeis intermináveis, enquanto um burocrata (e não um ser humano) acostumado a tal afazer dava-lhe todas e intermináveis instruções. Ulisses vivia um drama, e percebia na pele a impessoalidade com que era tratado. Quem se importa?

Ulisses não tinha raízes, estava entregue por que construiu sua identidade em bases frágeis, como a riqueza, o sucesso, e o exibicionismo. E lá se encontrava ele, um inseto a se devorar, longe de todos. Ele não enxergava ninguém além de si mesmo, como os outros poderiam lhe enxergar?

Mas, é só a partir do fundo do poço que a redenção pode se realizar. A vida é mesmo ambígua. Ao contrário de Gregor Samsa, Ulisses saiu do quarto, abriu a janela, e ativou sua memória afetiva. Eram pessoas passando na rua, não meros objetos que precisavam lhe admirar. De súbito, Ulisses sorriu ao ver uma idosa passeando com um cachorro, lembrou-se de sua mãe e do seu cão. Ao ir percebendo as semelhanças entre ele e os outros transeuntes, Ulisses resolveu ir “em busca do seu tempo perdido”: são os milagres terapêuticos da memória e dos afetos. Memória não de si, memória não dos outros, memória do que fez de si na sua relação com os outros. Ulisses precisava agora fazer uma longa viagem por sua mente, uma viagem de busca pela unidade de sua consciência. Os perigos estavam em si mesmo, irá se livrar das armadilhas? Poder-se-ia ouvir o universo a lhe falar: “Astuto Ulisses, vais à busca de ti! Pois, a pior escravidão é a do corpo, não te deixas levar por teus impulsos, mas aprende a mediá-los com tua experiência”. E lá se foi Ulisses a navegar.

II

A tarde caía naqueles áureos tempos de faculdade, mas a lua dos amantes não chegava. O tempo estava ambíguo: o sol irradiava com pungência, e do céu, caia pequenas gotículas de magia. Enquanto se abraçavam, Ulisses e Merlaine sentiam o cheiro de relva molhada, contemplando aqueles doces momentos. Pareciam eternos, não foram. E para o desespero de um pobre homem apaixonado: tornou-se melhor a cada dia posterior a despedida. O término tem o poder de potencializar os sabores.

Ulisses viveu um amor como o de Bento e Capitu, personagens de Dom Casmurro de Machado de Assis. E sabia melhor do que ninguém que não havia nada neste mundo mais angustiante e fulgurante do que a duplicidade. Para azar de Bento, assim como Capitu, Merlaine era a única pessoa que dominava a arte da língua dupla mais do que ele. Uma legítima e encantadora sonsa. O que era verdade ou mentira no que dizia? Nunca se soube. Merlaine era uma mestra em dizer meias-verdades, mentiras construídas através do ponto fraco do parceiro, para dissuadi-lo pela culpa. Faça pequenas provocações, nada claro ou sincero, espere a reação do outro, e construa sua narrativa a partir disto. Na melhor das hipóteses, infiel; na pior, dissimulada.

Assim como Bento, Ulisses nunca soube qual a realidade de suas rememorações, porque com Capitu tudo era sempre assim: subentendido, na dúvida. Perdeu um amor ao desconfiar (é possível perder por pedir?), perdeu um amor que nunca teve? Nunca saberá. O importante é que escapou das garras da dúvida, com o poder da decisão firme, embora incerta.

Do mais superficial e intenso dos amores, Ulisses percebeu que extraiu uma percepção poderosa, que lhe permitiu construir um sentimento sobre a ambivalência das situações, e de como devemos diante delas, oferecer a nossa mais profunda sinceridade. A vida era escorregadia demais, e sua falta de sinceridade já tinha entortado o coração de muitas mulheres. Talvez, tenha sido a sua vez.

Uma encantadora mulher sempre puxa o fio da meada duma memória afetiva. A partir daquela inspiração, como a apropriação do espaço entre o sagrado e o profano feito pelos alquimistas medievais, Ulisses começou a experimentar a dilatação do tempo em sua mente. Minúcias lhe viam, e a partir delas, passava horas e horas pensando, descrevendo cada detalhe, revivendo cada passo, refletindo sobre cada sentimento. Enquanto outras situações passavam voando, como o fogo sendo alastrado num tanque de combustível, e lhes eram mais intensas, a tal ponto de quase conseguir reviver tal dor. Ulisses estava tendo uma experiência singular do tempo, como Hans Castorp, de A Montanha Mágica de Thomas Mann.

Como Castorp, que fugia da fruição do tempo num sanatório do interior da Suíça, era agora um homem comum, expectador do mundo, que dilatava sua memória como se estivesse num idílio. Embarcando de tal maneira em seu passado, ele criava uma “realidade paralela”, explodindo a linearidade do tempo, onde agora tudo era passado-presente, com regras próprias e que nada tinha a ver com sua vida prática. Essa explosão do tempo dava um caráter fabuloso as suas memórias, sendo só assim que poderia mapear sua mente, distinguindo impulsos de desejos. E isto só poderia ser feito através de um paradoxo: sair da fruição do tempo da vida cotidiana ordinária com tal intensidade que fosse possível interferir nela. A desorientação lhe era educativa, e por vias da paixão e da dor, buscava sua experiência.

Para começar essa viagem, Ulisses aprendera que todo ponto de vista era confrontado com outro: o peso relativo de suas vontades e certezas. Como Castorp, estava tendo seu romance de aprendizagem, à procura de um caminho. Deste modo ambíguo e errante, Ulisses escapava das teias nostálgicas e comemorativas da memória, explodindo seu passado para iluminar seu presente, sendo impossível distinguir um do outro. Ele era agora circunstância experienciada. A guerra acorda Castorp, um choque na memória acorda Ulisses.

Ele relembrou do momento mais limite de sua vida: sua ganância desmedida na juventude levou-lhe a uma omissão que provocou a morte de um amigo. Ulisses era agora um misto de Julien Sorel, o ambicioso filho de um carpinteiro, em O Vermelho e o Negro de Stendhal; e Raskólnikov, o cindido ex-estudante de Crime e Castigo de Dostoiévski.

Ulisses preferia sonhar com o poder e com a glória do dinheiro do que levar aquela vida trivial na faculdade e no auxílio à família no pequeno comércio de tecidos, assim como Sorel, que sonhava com o brilhantismo do exército de Napoleão, ao invés do trabalho de carpinteiro no quintal de sua casa. Sonhos juvenis de grandiosidade. Em busca de riqueza e prestígio, o jovem Ulisses e seu amigo Bernardo, conhece o franco-brasileiro Carriére, pequeno e ousado investidor em tecnologia da informação.

Carriére tinha faro para jovens talentosos e ambiciosos, e viu em Ulisses e seu amigo, uma grande oportunidade. O talento combinado à vaidade e à falta de escrúpulos de ambos era o ingrediente de que precisava. Ulisses, que parece ter fulgor pelas inovações tecnológicas, na realidade tinha pouco interesse naquilo, tendo nisto um instrumento para ascender socialmente e impressionar pessoas importantes, pois, queria ser venerado.

Os especialistas em tecnologia da informação sabem que, nessa área, não há separação entre verdade e mentira, entre criação e espionagem. Usando de seus tentáculos numa grande companhia, Carriére tornou Ulisses e Bernardo espiões de primeira linha. Mas Ulisses não era só um artista da dialética, das situações ambivalentes, era também um sedutor irresistível. Elisa, uma bela mulher, dona de uma elegância e personalidade incomum, o desejo de qualquer homem dominador e naturalmente mentiroso. Só tinha um problema: era casada... Com Carriére. Ulisses e Elisa se apaixonaram perdidamente, como Sorel e a Sra. de Rênal.

Ulisses espionava recursos valiosos na TI que influiria em todos os níveis da estrutura organizacional dos grupos de Carriére: no nível estratégico e nos níveis operacional e administrativo, produzindo eficiência, velocidade e soluções incomuns a serem vendidas. Ao mesmo tempo, utilizava de seus dons de sedução para conquistar a esposa do patrão oculto. Um jogo duplo e de espelhos formidável.

O destino é o destino, e é o que é, não apenas por nos proporcionar oportunidades ou nos pregar peças, mas por que ele nos testa o tempo inteiro. Eis então, Ulisses, sua hora. Mais um encontro no subsolo do mundo com Carriére. O grupo crescia, o dinheiro e o amor de Elisa acalmava o ímpeto de ambição de Ulisses, mas ele queria mais. Apesar de relativamente jovem, Carriére possuía uma saúde frágil. Hipertenso, já tinha tido dois inícios de infarto, sem de a rotina sedentária livrar-se.

Ulisses estava impaciente, olhou para o relógio: já eram 22 horas, e o bar lhe aguardava; mas antes, tinha que repassar longos e aborrecidos relatórios para seu chefe oculto. De repente, Carriére começa a ficar vermelho, a perder a respiração, e subitamente, cai no chão, estrebuchando, colocando a mão direita no peito. Dele, só se ouviu:

- Meu remédio... Me... Remédio... Ali dentro... Minha... Pasta... Remédio...

Com grande esforço, Carriére implorava por ajuda. Na cabeça de Ulisses, veio-lhe uma oportunidade: deixar seu chefe morrer, casar com Elisa, sair da espionagem com todo conhecimento que adquirira, comandar o grupo de Carriére, e torna-se ainda mais rico. Todos os seus sonhos numa única oportunidade, logo pensou. Naquele submundo, ninguém saberia que ele ali esteve, talvez, só Bernardo. Ulisses pegou seus relatórios, limpou suas digitais na mesa e na porta, e colocou uma luva, coisas de espião. Então, mirou fixamente para Carriére e arrematou sem qualquer piedade com o olhar mais cínico do universo:

- Ne vous inquiétez pas. Cuidarei muito bem de suas duas esposas: a empresa... E Elisa. Au revoir, monsieur.

Ao pensar nisto, Ulisses sentiu um grande peso em suas costas pela primeira vez. Um tormento psicológico tomou conta de seu corpo, como ocorreu com Raskólnikov. Uma omissão que levou a uma morte em suas costas; uma mulher com quem casou e depois se despediu, tudo dela tomando; e um ex-amigo que viveu longos anos a lhe chantagear.

Em sua memória, uma luta intensa se passava entre o remorso e o arrependimento. Pois, quando nos remoemos por dentro, vivemos um sentimento duplo: de entrega total ao mal, ao não acreditar na redenção dos seus pecados; e de construção a este mal, porque agora, eis o seu lugar no mundo. Ao contrário, o arrependimento é uma dor menos intensa e mais duradoura, que só arrefece na construção da solidariedade durante o transcorrer do tempo. Ulisses percebeu que sentia vergonha de si, que não desejava aquilo novamente, e este era o primeiro passo para o seu arrependimento sincero. Momento de superar mais um obstáculo mítico ambivalente. Ulisses superou as artimanhas do remorso, que paralisa a vontade e acaba com a vida. E pôs-se a continuar sua viagem pela memória.

III

A memória de Ulisses encontrava-se agora no Coração das Trevas, como o livro de Joseph Conrad. Até que o seu olhar deslizou-se e bateu diretamente numa foto escondida entre seus aparatos de tecnologia. Uma imagem, uma lembrança, um momento especial. Agora, ele era Charles Marlow, protagonista do livro de Conrad, um marinheiro com talento para contar histórias e cativar pessoas, pois criava uma expectativa mágica em suas palavras ao viajar por terras distantes e cheias de aventuras.

No livro, Marlow era contratado para transportar marfim rio abaixo na África, no entanto, a sua principal tarefa era resgatar um famoso comerciante, o Sr. Kurtz, à civilização. Pois bem, Ulisses olhava aquela foto: Bernardo; mais dois amigos; Karen, uma grande paixão; e um professor americano dono de uma retórica apaixonante, o Sr. Gallette. Ulisses admirava-o profundamente, por sua paixão pelo que fazia, pelos brilhos nos olhos, e pela superação. A fama de brilhantismo do velho professor era antiga, e Ulisses só conseguia olhar para ele como Marlow para Kurtz: um mito, sendo incapaz de enxergar a pessoa por trás da lenda, pura admiração. Quem olhava para “Mister Gallette”, como o chamavam, e via aquele homem pequeno, franzino, andando de maneira desengonçada, mal sabia que por trás de um grande gênio das ciências da computação, existia uma história de superação. O americano sofria com transtornos psicológicos, possuindo um princípio de esquizofrenia.

O inverno atraía dias cinza, bastantes chuvosos, palco propício a muitos beijos entre Ulisses e Karen. Num destes dias, ao terminar uma aula para a turma de Ulisses, Gallette teve um surto de esquizofrenia na saída do prédio. O problema do professor manifestava-se para além dos alaridos das fofocas nos corredores. Ulisses, Karen, e seus amigos, tinham agora uma missão para com seu querido professor: ajudar-lhe a recobrar a razão. Eles precisam recuperar este brilhante orientador, como Marlow foi incumbido de resgatar Kurtz, homem de valor inestimável por causa de sua capacidade e intelecto.

Por admiração e lealdade ao velho professor, mesmo sem os meios necessários, Ulisses e seus amigos visitavam-no, traziam alegrias e bons fluídos. Assim como Marlow, que teve de lidar com as dificuldades impostas pela natureza, pela navegação, e pelo frágil vapor, na busca por Kurtz. A procura pelo equilíbrio de Mister Gallette envolvia adentrar ao “coração das trevas”, pelo amor que se expressa na lealdade, para investigar os limites sinuosos entre razão e loucura. E ao relembrar disto, assim como no livro de Conrad, Ulisses tornava-se uma alegoria da imersão sem retorno a uma viagem de autoconhecimento.

A partir do momento que a intimidade entre aluno e professor foi crescendo, Ulisses começou a conhecer certas faces repudiáveis de Gallette. O americano lhe confessara que há quarenta anos, foi um espião industrial de uma grande companhia, e ajudou a destruir tantas outras. Ninguém levou a sério, mas a partir do momento que ele contava mais detalhes, documentos, fotos; os alunos perceberam que o professor, na verdade, estava fazendo um grande reajuste com seu passado. O “Mister”, na realidade, era um grande mercenário, assim como Kurtz, cuja ganância não tinha limites. Decepção.

Por um instante, por uma centelha de percepção, os alunos entenderam a causa de sua admiração por aquele mestre. Gallette lhes trazia um paradoxo: quando abria a boca, ele se transformava no mais inteligente, no mais convincente dos homens; mas aquele carisma retórico era fruto (e só podia ser fruto) de uma personalidade complexa, arredia, vaidosa, ensimesmada. No fundo, era um hipócrita. Ainda assim, por que aquele velho professor merecia admiração e lealdade se nada tinha de heroico? Por que ele era o mais mortal dos mortais. Uma ambiguidade que sintetizava as forças da iluminação da verdade, mesmo morando no coração das trevas, no que há de mais perturbador e perecível entre os humanos.

O velho mestre já tinha morrido, e agora, Ulisses olhava para aquela foto. Como superar esse novo obstáculo colocado pela memória? Ele tinha a mesma personalidade de seu mestre, e sem sua ambição ou mania de grandeza parecia que feneceria no medíocre. Uma armadilha e tanto: o que fará?

Ulisses percebeu que a diferença entre o seu professor e o que ele poderia almejar estava na abertura ao outro. Gallette era dogmático, expunha suas certezas e convicções com máxima paixão e brilhantismo, e estas coisas guiavam sua vaidade e ambição, sem qualquer controle. Ulisses precisava agora aprender a lidar consigo, ter espírito crítico, não mentir pra si mesmo, conquistar sua voz interior, e morar numa “zona cinzenta” entre o preto e o branco. Tal ceticismo lhe tornaria avesso à veneração de si mesmo. Isto tudo, sem deixar de admirar o seu velho mestre, pela paixão com que se entregava ao conhecimento, e por toda ajuda que lhe deu. Independente dos defeitos alheios, Ulisses aprendera pensando sobre este tempo o que era lealdade, compromisso, confiança.

Entretanto, a sua onipresente solidão está exposta como uma ferida aberta pelo bisturi da lucidez. Era preciso refletir sobre a ambivalência mais obscura da natureza humana: a soberba versus a humildade.

IV

Voltemos a Karen, uma das doces paixões de Ulisses na juventude.  Ela era como Tereza, de A Insustentável Leveza Do Ser de Milan Kundera. Tereza possuía um espírito sensível, exaltava a vida do espírito, e tinha uma visão profundamente negativa das misérias humanas. A carne lhe era estranha. Karen chegava cedo a faculdade, com um mau humor incomum, sem dar trela a qualquer homem aos seus pés. Numa daquelas manhãs, ela observou algo diferente num colega de sala excêntrico. Ele tinha tirando da mochila um livro de Gabriel Marcel, para depois ascender solenemente seu cigarro. Era Ulisses. Ela viu refino, personalidade, alma. A de Karen não tinha nenhum sentido genuíno, e passou a ter a partir do momento que foi conhecendo-o. Ela coloca nos seus ombros, a responsabilidade por sua felicidade, lidando com os seus defeitos. Uma dádiva sempre é também um fardo.

Karen era sensível, intensa, romântica. Ulisses era o contrário, ambicioso, pragmático, despreocupado com os outros. Justiça versus liberdade. Eles tiveram um romance de encontro, mas de excessiva comiseração. Na “memória poética” de Ulisses, estava registrado o que lhe encantou, o que deu tanta beleza a sua vida: a paixão de Karen em busca por um sentido real, verdadeiro, e não meramente pragmático. Karen era generosa, Ulisses era um “trator”.

Antes de encontra-la, Ulisses era um “caçador épico” de mulheres, mas não um devasso. Ficava com várias mulheres, mas sempre uma de cada vez. Pois, queria conhecer o que havia de especial em cada uma delas, desejava conhece-las intimamente, mesmo que não se envolvesse. Ulisses refletiu sobre a importância de Karen em sua vida, sobre os sentimentos generosos que ela lhe mostrou, e ele desprezou. Não durou. Karen lhe abandonou, ao se decepcionar quando descobriu o que ele e Bernardo faziam por Carriére, ainda em início de carreira na faculdade.

Nos últimos anos, Ulisses tinha transado com muitas mulheres, mas sempre as despachava antes de sua sagrada noite de sono. Agora, lembrando-se das noites que dormiu abraçado com Karen, sabia perfeitamente a diferença entre sexo e sono. A vontade de fazer sexo distinguia-se do desejo de ter o sono compartilhado. Uma pessoa em sua condição real versus uma pessoa como mera imagem de vontade. Veneração simbólica versus veneração carnal.

Como no romance de Kundera, Ulisses era leve, vivia sua liberdade de maneira egoísta, descompromissada, alegre, nunca se comprometia. Ele experimentara com Karen, o primeiro peso real da responsabilidade por um engajamento. A sua leveza era sentido oco de vida, pois não possuía sentido profundo, mas mesquinharias a serem buscadas. Ao comprometer-se por um tempo com Karen, tinha uma razão de ser. Só agora, diante de tantas dificuldades, Ulisses pôde isso compreender.

O mais importante da vida não se encontrava dentro dela, mas fora, lhe dando sentido. Uma vida virtuosa envolvia constância, lealdade, compromisso, engajamento, respeito. E tudo isto, exige doação pessoal em prol do outro. Mas não uma doação obrigatória, chata, rotineira, mas um desejo profundo de realizar-se noutros, um desejo cativado neste encontro, em descobrir o que há de especial naquele ser humano. Ulisses percebeu que ao querer a admiração alheia, ao tratar todos em sua volta como um objeto de desejo, oferecendo-lhes dinheiro em troca das obrigações, não ofendeu os outros, mas antes, perdeu a si mesmo. Karen lhe tinha dado muitas coisas, e ele a perdeu por dinheiro, ambição, pela vida dupla de espião.

Enxergar a verdade é também – ao mesmo tempo – uma dádiva e um fardo. Mas, concede certa tranquilidade psicológica. Ulisses olhava agora calmamente para sua vida, e poderia retornar ao momento mais importante: sua infância. Ulisses era agora Oliver Twist, personagem que emprestava o seu nome ao título do grande romance de Charles Dickens.

Ulisses não perdeu a mãe na irrupção de seu nascer, como Oliver, mas a perdeu cedo, com treze anos, vendo se despedaçar em seus braços por um câncer fulminante no pulmão. Não teve que se perder como Oliver, que foge por Londres em busca da liberdade contra um tratamento desumano, mas encontra o seu Jack Dawkins. O velho “Batuta”, como era chamado, constituía-se num legítimo “trapaceiro astuto”, um malandro das ruas. Desde cedo, aprendera a quebrar as regras sem por isso se prejudicar.

A convivência do jovem Ulisses com o malandro incomodava seu pai, que atarefado com seus complicados negócios, não possuía tempo para cuidar da família. Porém, num daqueles dias ensolarados como a alegria, em que nada poderia dar errado, Batuta e seu pupilo foram pegues tentando enganar tolos com jogos de azar em plena avenida. Faça-o ganhar confiança ao vencer a primeira, e depois trapaceei em todas as outras: eis a estratégia das ruas. Não foi sempre assim?

Não naquele dia. Uma moça tinha sido enganada, Kathelyn. Mas, ao contrário do que se pensava, de ingênua nada tinha a firme mulher, que há dias estava de olho na dupla, esperando pegá-los com as calças curtas. Por sorte do destino, Kathelyn era uma contumaz compradora da loja do pai de Ulisses, e estava de olho no menino treloso. Dois malandros a tentar lhe enganar, e ela preocupada com aquela criança que mal conhecera.

Kathelyn não denunciou a dupla à polícia, mas desmascarou lhes na frente de todos, dando-lhes uma grande lição moral. Ulisses foi tomado por uma vergonha abismal, não tinha ideia de onde colocar a cara. Kathelyn levou o menino até o seu pai e contou toda história, mas agora, acalmava os ânimos, dando carinho à criança. Por amor a quase um desconhecido, lhe deu uma grande lição; por amor a quase um desconhecido, impediu a admoestação da criança, fazendo-lhe ver horizontes pelo amor.

Ulisses pensava naquilo e via a atitude mágica de bem-aventurança que sua futura madrasta teve consigo, e de como ele tinha sido injusto na riqueza, desprezando todo carinho. As aventuras desse tempo se passaram pela cabeça de Ulisses. Tempos bons, de ingenuidade, sem preocupação, era precisa resgatar um pouco dessa leveza, mas soma-la com a experiência de vida. Acima de tudo, mediar essas ambivalências com a unidade de sua consciência.  Depois dessa viagem exaustiva por sua mente, estava de volta à razão, de volta ao seu lar de verdade, estava pronto para recomeçar. Pediria desculpas a quem afetou, e tentaria refazer os laços que rompera. Ele era prova de que a memória era educativa. Assim como, a boa literatura reeduca o imaginário.

V

Caro leitor, a vida para você é um caos sem sentido, sem significados, sem permanências, pura irrupção de acontecimentos descontínuos, repleta de mudanças e rupturas? Pois, te faço um convite: abra a janela, vá para varanda ou terraço, saia de casa. Exerça a sua liberdade de ver os outros e observe: não com os olhos, mas com a alma. Olhe para aquele casal de adolescentes apaixonados vivendo sua primeira paixão, lembrou-se da sua? O porteiro e um morador conversam, trivialmente, diariamente, criando – quase que sem se perceber – um afeto, uma relação de confiança, que explodem o continuum das relações pragmáticas entre patrão e subordinado. Lembrou-se de suas amizades? Os garotos sorriem, enquanto pensam em quantos gols irão fazer na pelada matinal, qual sua diversão? Seres humanos, todos eles diferentes, encarando ambíguas situações de escolha (se amam ou não, se sorriem ou não, se arrolam o tempo numa conversa despretensiosa ou não). E você com isto? Você se reconhece neles, aquilo te diz respeito de alguma forma. Nada do que é humano, te é estranho. Perceba a unidade na diferença. Perceba a unidade diante do caos de personalidades, escolhas, circunstâncias.

A literatura trata disto: da vida. Em suas nuances mais radicais e ambíguas. Um encontro reluzente, constelar, suspenso no ar, entre a objetividade e a subjetividade. O escritor é dono de seus personagens, uma imitação do divino que escolhe os destinos de seus filhos. Filhos, que são sua imagem e semelhança, parte do seu ser. Mas, eles não param em si mesmo, na individualidade, na pessoalidade. Tecendo uma narrativa a partir de seus personagens, a subjetividade do escritor comunica-se com seus leitores, tocando os seus corações, e criando uma situação objetiva, onde podemos perceber a unidade da existência ao reconhecer-se naquele indivíduo que se expressou literariamente.

Eis, a magia da literatura. Ela mostra a unidade da diferença, as pontes entre a objetividade e a subjetividade. É através dela, que vemos a máxima expressão do inexplicável, invisível, e essencial, que comunica um ser humano ao outro, que o faz se reconhecer em outro, criando uma identidade mágica. Ela cuida dos sentimentos que circulam, vão e volta, não são perecíveis.

Por isto, a literatura é um ato de amor para com o mundo. O diabo Mefistóteles costumava dizer no Fausto de Goethe: "tudo que existe merece fenecer". É exatamente contra isto que a literatura se põe, com teimosia e grande galhardia, inscrevendo o imortal na perecibilidade da carne. Tornando-se uma fantasia que almeja o bem, desejando os outros ao comunicar nossa essência. Sem a ideia de compartilhamento, ninguém teria interesse em qualquer obra literária. A literatura capta os nossos sentimentos em comum, a ambiguidade da vida, a complexidade de nossas circunstâncias, fazendo tudo isso comunicar-se como numa máxima da alquimia medieval: “o nosso ouro não é ouro comum”.

Amar - no sentido mais amplo - é a liberdade de desejar o oposto do fenecimento. Escrever é um ato de amor para com o mundo, é deixar escrito no tempo algo de seu que precisa ser dito para os outros, não só aqui e agora. Geralmente, o escritor viveu muitas dores, fracassos, perdas. Transforma tudo isto em experiência, e sente uma necessidade sufocante de externalizar este amor contido. Sua personalidade é complexa, pois, faz do fracasso algo grandioso. E percebe na capacidade da relembrança, na morada da memória, o entendimento dos significados da vida. Ao amar, o escritor revela na concretude de sua escrita os encontros míticos e simbólicos entre os humanos. Por isto, de costume, o escritor escreve melhor quando a vida lhe inquieta e lhe coloca questões complexas e ambíguas.

Independente de sua relação com a sociedade, ele almeja recuperar sua existência na escrita. Ele observa a trivialidade, o banal, as coisas pequenas, e os detalhes, que constroem um evento, e tecem uma narrativa. O literato está em busca disto: o real encontra-se na obviedade ao nosso redor.

Desta maneira, um bom escritor é responsável e consequente. Porque ele sabe que todo ato sempre tem uma consequência, e que no mundo nunca acontece exatamente o que queremos. Raramente a questão mais importante é você ou o outro, mas sim, o que você faz de si na sua relação com os outros. E ele assume isto, de tal forma, que precisa ser responsável e consequente com o que ele diz: assumidor de seus atos, artista de suas palavras. Uma magia que supera o continuum do tempo.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Na Proa do Titanic, de Costas para o Mar



“O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.

Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros – no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.”

In Memoriam de David Foster Wallace. Que me legou com estes dois parágrafos, o ímpeto criador, dando vida e ânimo ao texto.

Era abril de 2009, deitava calmamente num banco à espera de mais uma aula, provavelmente aborrecente, enquanto tinha em mãos um livro de Fredric Jameson: Pós-Modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. Antes mesmo de entrar na graduação, o assunto já me fascinava por abordar os estudos culturais de maneira menos trivial ao qual estava acostumado. Já o tinha tido em minhas mãos em outras oportunidades, mas me considerava, na época, burro demais para entender qualquer coisa expressa pelos jargões herméticos de Jameson.

Eis que, logo no início da leitura (sabe-se lá Deus em que página) encontro uma daquelas passagens que te marcam profundamente e, sem você perceber, grava-se na “memória da alma”, para de lá, nunca mais sair. Não lembro a expressão exata, mas dizia algo do gênero: “num mundo modernizado, onde os homens movem a qualquer momento uma montanha, e dominam a natureza, a ideia de essência ou algo constante não poderia nos parecer mais estranha, num mundo onde tudo é percebido como mudança”. Não sei qual seria minha reação ao ler novamente os livros de Jameson, depois de tantos anos e descontinuidades. Mas isso, pouco importa. Naquele momento, a leitura condensava em mim, uma inquietação, fruto de uma ambiguidade.

Antes de entrar na graduação, Robert Kurz e toda sua trupe da Krisis (Scholz, Jappe, etc.) me causou comoção. Uma crítica radical ao valor e ao moderno sistema produtor de mercadorias (incluindo, o socialismo real); a negação radical (com a antipolítica, antieconomia, etc.); a radicalidade da preguiça, culminando no manifesto contra o trabalho. Uma crítica radical a toda ideia de fetiche, ao mercado, ao trabalho, a cisão de gêneros, e não a questões específicas do marxismo tradicional. Junto com isto, vieram os situacionistas e Debord, a admiração pelo espírito de 68, o Foucault do Vigiar e Punir, Deleuze, Negri, Woodstock, hippies, os filmes de Godard, Bertolucci, etc. Ainda que, avesso a classificações, era um típico libertário ao meu modo. Meu agir no mundo estava (quase que) inteiramente mediado por essas crenças.

Entretanto, toda essa ânsia juvenil por liberdade, era contrabalanceada parcialmente por certas leituras de Lukács; que de alguma forma, ressoava uma parte da crítica reativa (conservadora) ao “mundo burguês”. A minha tendência ao relativismo, ao historicismo, e ao culturalismo, morria no berço. A leitura de Jameson, acompanhada na mesma época pela de Terry Eagleton, em sua labuta contra a pós-modernidade, colocava-me em outra situação: perceber nesse espírito libertário, uma parte integrante do “sistema”.  A associação entre o pós-modernismo e o capitalismo pós-industrial, tendo no espírito do maio de 68 o seu inaugurador simbólico, tomou-me de assalto, ampliando minha imaginação e entendimento. Só muito tempo depois, desenvolveria esta percepção ainda tão vulgar.

Seja como for, simbolizada nesta ambiguidade (ainda que mal trabalhada); em mim, permaneceu viva uma sensação assustadora, ainda que, prematura: existia no desejo de ruptura e de negação ao mundo presente, uma confirmação deste mundo, ativando suas engrenagens (o progresso), e fazendo sua dialética prosseguir. Na minha mente de vinte anos, o espírito de 68 deixou de causar sonhos românticos com a “imaginação no poder”, e passou a representar outra coisa: parte da “cultura do novo capitalismo”. É da minha personalidade, ser avesso a certas convenções, mas percebia no “ensimesmamento” em nome da liberdade da moçada libertária mais uma delas. Somam-se a isto, experiências concretas que, mostravam-me a irresponsabilidade, a imaturidade, a falta de compromisso e lealdade. A busca histérica por um ideal de mundo sempre resulta em seu contrário. Sobre isto, um trecho de A Euforia Perpétua de Pascal Bruckner, está repleto de razão:

“O que ocorreu para que a crítica da sociedade de consumo tivesse tão rapidamente a partir dos anos 60, conduzido ao triunfo do consumismo? É que as palavras de ordem lançadas à época: “Tudo imediatamente”, “Morte ao tédio”, “Viver sem prorrogação e gozar sem entraves” se aplicavam menos ao domínio do amor e da vida do que ao da mercadoria. Acreditava-se estar subvertendo a ordem estabelecida, mas favorecia-se com total boa fé a propagação do mercantilismo universal. É no plano da fome e da sede que todas as coisas podem se tornar imediatamente acessíveis, já que o espírito e o desejo têm seus ritmos próprios, suas intermitências. A intenção era libertária, o resultado foi publicitário; liberou-se menos a libido do que o nosso apetite por compras sem limites, nossa capacidade de agarrar sem restrições todos os bens. Bela imagem do revolucionário como prospector oficial do capital é no que se transformaram afinal o movimento operário, o marxismo, e a esquerda radical, capazes de criticar uma falha no sistema, mas de permitir-lhe se modificar a um custo mínimo. Um pouco como aqueles hippies que descobriram lugares sagrados de turismo na Ásia, na África, ou no Pacífico trinta anos antes de todo mundo, mas que eram movidos pelo desejo de fugir e se isolar. É absurdo criticar o consumo, luxo de crianças mimadas. Ele tem de atraente o fato de oferecer um ideal simples, inesgotável, acessível a qualquer um, contanto que esteja solvente. Não exige outra formalidade senão ter vontade e pagar. O consumidor é cevado, saciado como um bebê alimentado a colheradas. Seja o que for que achemos disso, divertimo-nos bastante, pois, como na moda, adotamos sofregamente o que é proposto como se tivesse sido escolhido por nós”.

Faço todo esse preâmbulo a uma época de minha vida intelectual, mas que foi ainda mais significativa em casos concretos (não só na militância), para introduzir um tema que me é caro: a revolta permanente não só como elemento integrante, mas uma espécie de lança do mundo moderno, ao mesmo tempo, universalizando-o em suas bases e nos trazendo a sua decadência. O homem revoltado, mostrado por Camus, é a herança do mundo moderno, contra o qual ele aparentemente se contrapõe. Homem permanentemente revoltado que hoje, fez da indolência militante (de longe, generosidade; mas, de perto, busca pelas fantasias próprias de um paraíso particular) a sua morada, e da revolução um contínuo integrado, sendo realizada diariamente como uma infernal previsão, levando ao limite aquela incompatibilidade tão bem notada por Camus entre a revolução e o amor. Não me excluo de nada que aqui analiso, pois, tudo o que observei foram frutos de certas situações que vivi, em lugares-limites que fui, e em experiências que observei. Tive que me debruçar, para investigar a revolta em mim mesmo. Este texto é também uma história de busca e um método de autoconhecimento. Em certa medida, é uma prazerosa e dolorosa autocrítica.

Desde então, assusta-me de sobremaneira, a interligação entre: o homem revoltado com o mundo que lhe cerca; o pragmático liberal (de direta ou esquerda) que acredita na estabilidade do mundo institucional, sem vislumbrar a sociedade sufocada por tantas camadas formais, perdendo qualquer substância que lhe dê sentido e comunhão; e o libertário utilitarista, que acredita no poder do desejo individual como remédio para todo mal.

Olhando assim, a questão parece ser: apoiar ou negar o mundo que aí se encontra? Porém, esta pergunta cria uma espécie de caixa com fundo falso, onde até a saída não passa de uma miragem. A solução para este enigma reside na falta de solução. Todas elas são irrelevantes, afinal. É preciso largar este falso dilema, para reconquistar nossas percepções e o senso de responsabilidade de ação no mundo: ser responsável por seus atos, reconhecê-los, e assumir as consequências. A dignidade mora na responsabilidade para com o outro.

Não há mundo melhor. Somos seres incompletos, aspirando alguma religação. A incompletude e a ambivalência das situações práticas do nosso mundo material fundam a cultura. Tentar eliminar os limites da vida é – de partida – revoltar-se contra a própria estrutura da realidade, dos sentimentos que circulam entre todos nós, e fazem a ponte entre a objetividade e a subjetividade, nos comunicando. Estar no mundo, buscar sua voz interior, compreender suas circunstâncias e o seu ser, obriga a uma visão de mundo que contemple sempre as perdas e os ganhos, sem grandes aspirações políticas totais. Sem ilusões da carne: o pragmatismo como cálculo social e afetivo. A vida reduzida a política torna-se pobre, por que não é nela onde se encontra os seus grandes enlaces e encontros. Contra esta política como doxa do mundo moderno, a arte virtuosa parece o último refúgio da verdade. A literatura de Dostoiévski expressa isto.

Seja como for, neste texto, trato de uma inquietação. O que me preocupa é mais certa visão de liberdade, de humanos vaidosos e entregues ao culto de si mesmo, que tenciona a sociedade moderna aos seus limites de destrutibilidade. Meu interesse é investigar e refletir o mundo que se perde em busca dessa “liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos”. A liberdade de venerar a si mesmo, dogmática, inflexível, que não se mistura, e tem “nojinho” da dura realidade. Em contraposição, a liberdade que valoriza a disciplina, a lealdade, o compromisso, o desejo cultivado e não as fantasias e os impulsos mais primitivos, sem que deles se prescinda. A liberdade que encontra a sua voz interior, a sua personalidade. Esse texto não é uma peça de acusação política, mas um exercício de amor à vida que merece ser vivida, com sinceridade, verdade, firmeza, constância, bem-aventurança. Dedico-o a indivíduos de verdade: os que não se dobram diante da crise de personalidade.

1.
A chegada ao Ocidente de livros gregos e latinos, na baixa idade média, ao mesmo tempo em que, a escolástica entrava em crise, criou descontinuidades na história intelectual. A partir, sobretudo, do Século XIII, crescendo nos dois séculos posteriores, desenvolveu-se na Itália, uma tendência a atribuir valor elevado aos estudos das litterae humanae, tornando a Antiguidade Clássica (grega e latina), um paradigma para as atividades culturais e artísticas. Neste sentido, surge o "Humanismo", indicando a tarefa do literato, que iria além do ensino universitário, entrando pela vida ativa e tornando-se "nova filosofia".

O “Humanismo” foi o primeiro adversário mais sério da escolástica. Ele representava certa hostilidade contra o dogma religioso, e tendia a tirar a autoridade dos clérigos e passar para os cortesãos e literatos. Outra característica desta época é a valorização da capacidade racional, como elemento que nos levaria ao conhecimento da realidade, o que costumamos chamar de Racionalismo. É também uma época de valorização do conhecimento empírico e do hedonismo.

Esse período de modificações na história intelectual transcorre paralelamente ao “Século de Ferro”, situado entre 1550 e 1660, tomando como referência as grandes transformações sociais, políticas e econômicas trazidas pela implantação do capitalismo, e a outros acontecimentos históricos, como a Guerra dos Trinta Anos, que delineia a paisagem política e cultural da Europa moderna. Uma mudança ocorre: na vida material das pessoas, com a ascensão da burguesia, renascimento do comércio, crescimento das cidades; na maneira como as pessoas enxergam e se sentem parte do mundo; e no clima intelectual da Europa. Essas mudanças na mentalidade são sentidas nas obras de pensadores como Copérnico. O deslocamento da terra, obra prima do Deus criador, do centro do universo significou que o homem, tido como o supremo ato da criação, deixou também de ocupar seu lugar de criatura sujeito a um Deus. Mas, um personagem, em especial, destaca-se como filho dessa mudança: Francis Bacon. Ele incorpora esse novo espírito da crítica, assentando o que viria a ser a ciência moderna.

Francis Bacon destacou-se pelo combate as concepções da idade média e pela criação de outros princípios, fundando a ciência moderna, em seu Novum Organum. Nessa obra, Bacon tentou demonstrar as inadequações da ciência aristotélica e do apriorismo tomista. Ele argumenta que a ciência aristotélica por ser meramente dedutiva, não proporciona um método investigativo e instrumental, que possa operar na natureza, e chegar a fatos novos. Bacon propôs o método indutivo, por onde – através do experimento – poder-se-ia chegar a postulação de leis universais, sobre a base das instâncias observadas. Embora, a criação desse método tenha sido mais especulativa, as críticas de Bacon à tradição aristotélica abriram novas partas para o pensamento científico.

Desta forma, a partir de Bacon, surge a crença de que a natureza material é um código escondido, que não se revela diretamente ao homem, disfarçando-se. Portanto, para compreendê-la, seria necessário, através de um experimento, dominá-la para obriga-la a dar uma resposta. E este consiste, portanto, na instrumentalização das forças naturais, visando a sua apropriação. Kant, mais tarde, resumirá o espírito dessa nova ciência ao dizer que o cientista não se coloca diante da natureza como um observador, de maneira contemplativa, mas como um juiz de instrução.

A ciência moderna “deverá ser ativa, operatória, eficaz e não contemplativa e verbal. Ela é intervenção na natureza, modificação física desta. Essa relação ativa, e até violenta, caracteriza a pesquisa e aplicação”. (HOTTOIS, 2008: p.66). A ciência moderna precisa ter operacionalidade e eficácia, ao invés de ser contemplativa e verbal. Ela é instrumental, por que precisa intervir na natureza, permitindo que o homem seja senhor e mestre dela. O indivíduo é colocado no centro deste projeto ao isolar elementos da natureza, e não contemplá-la em sua presença total.

Os experimentos são realizados dentro de certas condições, a partir de hipóteses e perguntas pré-estabelecidas, recortando o fenômeno das suas demais relações. O que é examinado não é a realidade em sua presença total, com suas ambiguidades, mas certas possibilidades, isolando a concretude. A ciência moderna esconde a ambivalência do mundo. A própria dialética inerente ao homem, com sentimentos ambíguos que circulam e congelam o tempo, é suprimida. Porque a realidade concreta é um mistério, e só pode ser apreendida, em certos aspectos, por contemplação e observação.

Com o fim do espírito contemplativo, a ciência instrumental – e consequentemente, a técnica e a modernização – insere um elemento subjetivista inegável. Representado pela supremacia do interesse, da ideia de meios e fins, e de adequação (razão subjetiva), sobre as coisas racionais por si mesmas (razão objetiva). A ciência passa a indagar não a substância, mas a função. A ciência moderna nega as pretensões essencialistas da metafísica. Essa nova ideia de ciência, metodologicamente hipotética e controlada exige adaptações às novas instituições, academias, e laboratórios, criando uma separação entre ciência e fé.

A natureza deixou de ser uma experiência real, ambivalente; pois, ao mesmo tempo em que, nos reconfortava com comunhão, ameaçava nossa auto-conservação. Dominando-a, para conhecer suas partes específicas e melhor conservar-se, colocamo-la como objeto de experimento científico. Para compensar essa perda da totalidade e da experiência real, entra em campo o elemento da medição e exatidão matemática. Mas esta, também vem do sujeito investigador, que não pode compensar a perca das relações reais, da experiência, e da presença total da realidade. E disto, decorre o subjetivismo moderno, que – de certo modo – nega a realidade concreta.

A nossa visão da natureza material passou a ser modelada pelos nossos interesses. O indivíduo encontra-se, então, no centro e no topo da realidade. E a grande promessa do mundo moderno é que por meio da ciência e da técnica, o homem poderia se libertar da barbárie, da fome, da ignorância, da injustiça, e se autoconservar melhor. Como desejava Bacon, o saber deveria imperar sobre a natureza desencantada, não reconhecendo limites ou barreiras. “No trajeto para a ciência moderna, os homens renunciaram ao sentido e substituíram o conceito pela fórmula, a causa pela regra e pela probabilidade” (ADORNO; HORKHEIMER; 2006). Recusando aquilo que não se enquadra nos critérios de cálculo e utilidade, a ciência moderna busca o método para operar os fatos a serem ordenados, classificados, permitindo a explicação, a previsão e o controle.

Em compensação, com seus experimentos, a ciência moderna alargou o campo das possibilidades, obtendo muitos resultados, que geraram aplicações técnicas, e posteriormente, processos de modernização. Existindo, desta maneira, uma relação entre uma nova concepção de ciência, mais instrumental, que leva a conquistas técnicas; novas relações sociais, com a ascensão da burguesia; uma nova maneira de ser e estar no mundo; e, novos conceitos introduzidos na filosofia moderna. Representando um novo pensamento e uma nova sensibilidade que emergiram, resultando em profundas transformações socioculturais, com a construção de novas sociabilidades e sensibilidades.

A novidade incessante, gerada pelo domínio técnico, acelera o tempo, abre o mundo, dando margem a uma nova maneira de pensá-lo, de fazer cultura. O perpétuo vir-a-ser, turbilhão moderno, desbrava distâncias, vai “desmanchando no ar” o que antes era sólido. A ciência moderna, as inovações técnicas, a modernização das cidades, alterará profundamente as paisagens e cartografias da vida. O trem, as estradas, as maquinarias, as fábricas, o telefone, e tantas invenções, invadirão o “mundo das tradições”. Se ela nos trouxe mais segurança e comodidade, trouxe também, perda da experiência da presença total (e ambivalente) da realidade, da contemplação, o esquecimento do transcendental e dos valores que dão sentido a uma comunidade, agora meras formas abstratas.

2.

O projeto moderno coloca o indivíduo no centro do mundo, ao prometer que com uso da razão subjetiva (pragmática, instrumental, etc.), do esclarecimento, das luzes, da ciência moderna, nos autoconservaríamos melhor, através de um ordenamento racional e técnico. A modernidade marca também a ascensão do mundo das instituições, do estado-nacional, e da democracia formal, inaugurando a “Era dos Direitos” (Bobbio).

Este projeto é operado, como notado por Max Weber, através da ciência e do Estado. Neste sentido, Weber irá defini-la como a época da “organização capitalista racional assentada no trabalho formalmente livre”. Ou seja, é a era do advento da “organização industrial racional”, orientada para um mercado, em que as empresas não estão mais vinculadas a uma unidade doméstica, e criam sua “contabilidade”. Para isto, o capitalismo não pode prescindir da ciência moderna e da técnica. Esse processo de racionalização penetra as instituições, com o Estado-nacional, que tem sua administração sendo realizada por especialistas e assalariados, ou seja, por uma burocracia independente.

Na cultura, segundo Weber, ocorre um projeto de autonomia, correspondendo à ideia de domínio pessoal nas esferas de valoração humana (como a ciência, a arte e a moral), em detrimento das relações e símbolos metafísico-religiosos que, anteriormente, davam sentido e comunhão à vida humana. Weber denomina este processo de “desencantamento do mundo”: “racionalização” crescente que se manifesta na conduta humana, ao invés das explicações mitológicas ou simbólicas.

Não só pelo crescimento do mercado, mas por ele ter se tornado central em nossa vida cotidiana, podemos falar também – no mundo moderno – numa lógica abstrata do valor. Independente dos formidáveis benefícios que ganhamos com o mercado, não há como negar que as relações objetivas entre as pessoas nele é uma relação – em certo sentido – entre coisas. Ou seja, as relações entre as pessoas no mercado são entre portadores privados de dinheiro/mercadoria. E já que estas relações são mediadas pelas mercadorias/dinheiro, elas tendem a autonomia, podendo afetar a maneira como nos relacionamos com as pessoas em outras esferas. A estrutura mental dessa lógica abstrata do valor (sua equivalência universal) influencia na maneira como produzimos cultura, e de como lidamos com o mundo.

No Fausto de Goethe, o diabo Mefistóteles costumava dizer: “tudo que existe merece fenecer”. Na roda-viva dos processos de modernização e nas engrenagens do progresso, tudo parece se transformar em perecibilidade, mudança, devir. Tudo nos parece descartável. Neste sentido, o torvelinho moderno gera um impasse: promete felicidade, progresso, transformação do mundo ao redor, mas, ao mesmo tempo, nos tira a identidade, os encontros míticos e simbólicos, a constância, as bases transcendentes, aquilo que é sólido. A modernidade ultrapassa as fronteiras entre nações, religiões e culturas, numa espécie de universalismo formal; porém, de maneira paradoxal, vivemos na eterna desintegração, na cultura do repúdio (onde tudo está sempre a se reciclar, começar do zero, de novo e de novo), num turbilhão de mudanças, disputas, e contradições entre o antigo e moderno, gerando mal-estar e angústia.

Pois, no cerne do projeto moderno há uma promessa de felicidade, baseada na ideia de que a humanidade está sempre progredindo em direção à civilização. A justiça e a bem-aventurança saíram do céu e vieram para o mundo terreno, num processo de secularização. O paraíso não deveria ser mais esperado para o além da morte, mas dever-se-ia ser construído aqui e agora, desde que se confiasse na razão, nas instituições, na ciência. “O paraíso terreno é onde estou”, dizia Voltaire. A ideia de progresso suplanta o da eternidade, e o futuro é o refúgio da esperança.

Mas, evidentemente, as promessas feitas pela modernidade não poderiam ser cumpridas. Otimista com o futuro, embriagado de expectativa pelo paraíso próximo, da felicidade perene, e do gozo permanente, livre de todos os males e limites; os modernos se depararam com o abismo, o Século XX. Duas grandes guerras, genocídios, holocaustos, ditaduras coletivistas que matariam mais do que quaisquer outras na história da humanidade, desagregação social, anomia, desenraizamento, perene mal-estar. Se antes admirávamos o mar e a promessa de terra futura onde jorraria leite e mel, de dentro do Titanic, o navio-símbolo do progresso; agora, voltamos nosso olhar para dentro deste navio (ou para dentro de nós mesmos), fazendo dele o próprio palco de nosso prazer efêmero, que nada mais é do que uma revolta permanente contra a realidade. Pois, começar sempre de novo é esquecer aquilo que já se foi, onde tudo é destruído – ao ser integrado – em busca de uma salvação hipotética: salvemos todos, ao tudo destruir, para do “zero” o mundo recomeçar.

O fim da Grande Guerra e a irrupção de 1968 foi significativo no novo estágio do capitalismo e daquilo que gosto de chamar de “hipermodernidade” (Lipovetsky). A base do capitalismo deixa de ser a poupança e o trabalho, e passa a ser o consumo e o desperdício. A vertigem de 1968 inaugura um novo dogma de felicidade, adaptado aos novos tempos, contra a visão restritiva. Agora é proibido proibir, mesmo que isto seja uma abstração sem sentido. A felicidade virou um imperativo, e a redenção passa pelo corpo.

O projeto moderno concretiza-se na globalização, no império das instituições globais (ONU, UNESCO, etc.), na mercantilização da vida, na onipotência do indivíduo, mas também, na universalização do consumo, na ampliação do conforto, e na segurança para lidarmos com nossas próprias vidas; dando-nos ainda mais mostras de suas consequências. A ideia de progresso foi ressignificada, e continua presente na gramática política e no cotidiano das pessoas, não sendo mais defendida de maneira ingênua. O moderno turbinou-se, e como em todo triunfo falta equilíbrio, já se nota no ar o cheiro putrefante de degradação, decomposição e decadência.

A Hipermodernidade é o “império do efêmero” (Lipovetsky), uma cultura do excesso, do sempre mais, pois tudo se tornou intenso e urgente. A sociedade voltou-se para o hedonismo, e agora podemos tudo: pois, temos um dever de felicidade (e não mais um direito). O foco é o prazer mais imediato, e não a realidade mais profunda, e ai de quem contrariar as fantasias e os desejos alheios. O nosso tempo, ao acompanhar a intensidade e (falta de) sentido de nossa vida, virou flexível e fluído. A instabilidade é a regra.

Entregue as suas fantasias, ao dirigir os “seus reinos pessoais”, o homem hipermoderno desfruta de sua liberdade a partir de uma postura impulsiva, e não raramente, histérica. Sem voz interior, mudando a cada instante, ensimesmado, mentindo para si mesmo, perdido sem a tradição e sem poder contar com reflexões a cerca de sua conduta, este sujeito vira um náufrago da existência, uma espécie de “homem-geleia”, onde a inteligência já virou uma pasta, e a confusão e falta de sentido predominam em suas atitudes. Em síntese, perdeu-se a experiência.

3.

A carnavalização dos paradoxos e a destruição do referente, marcas do mundo hoje, possui sua morada no subjetivismo da filosofia moderna. Para René Descartes, na interioridade do homem, ou seja, através da razão humana, a luz natural que o homem possui em si mesmo, sua racionalidade, é que se pode chegar à verdade, e desta maneira, justificar a ideia de ciência, através do método e da dúvida.

Portanto, o conhecimento apodítico não se encontra numa entidade objetiva, ou na estrutura da realidade, mas no sujeito pensante. Com Descartes e Francis Bacon, observamos que nas origens da questão do conhecimento para o mundo moderno, encontra-se o “primado do sujeito”. Com Descartes, exacerba-se a estranheza e revolta quanto à incerteza do conhecimento humano, o que evidentemente levaria a decepções. Logo em seguida, um século depois, chegamos ao empirismo de David Hume, que nega a possibilidade do conhecimento apodítico, colocando até as noções básicas da lógica como incertas. Nascemos com uma folha em branco, aonde o conhecimento sensível vai moldando-nos. O ceticismo de Hume já é reflexo desse primado do sujeito colocado pela ciência moderna e pelo racionalismo, sendo pessimista quanto a sua solução.

Num esquema realista, o conhecimento é o conhecimento das coisas, e as coisas são transcendentes a mim. Num esquema idealista, como o kantiano, pode não haver nada a não ser minhas ideias, e assim, as coisas são algo imanente, e meu conhecimento é de minhas próprias ideias; ou minhas ideias são das coisas, onde estas dão-se em minhas ideias, sendo ideias das coisas, e não só minhas, aparecendo como fenômenos.

Kant distingue a razão pura da razão empírica, e a razão prática da razão teórica. A razão teórica quer estudar o objeto em si (por exemplo, o homem em si, a antropologia filosófica), o que ele é; enquanto, a razão prática quer estudar a forma do sujeito cognoscente realizar-se no mundo: o que eu devo fazer. A fonte do conhecimento tanto da razão prática como da razão teórica poderia ser a razão pura ou a razão empírica. Nesta, chega-se ao conhecimento procurando-o na experiência, na realidade empírica; já na razão pura, chega-se ao conhecimento procurando-o nas ideias inatas, com as quais já nascemos. Kant chega a seguinte conclusão: só existem a razão teórica empírica e a razão prática pura. Então, o caminho da moral é exatamente o oposto da razão empírica, pois existe uma lei moral dentro de mim (o imperativo categórico). E só é possível conhecer as coisas a partir da experiência. Assim, nada conhecemos da natureza em si, mas só dos nossos esquemas mentais projetados.

4.

O indivíduo ensimesmado do mundo moderno, que se considera a própria encarnação da verdade, mostra grandes doses de vaidade. E esta, é o desejo de atrair a atenção e admiração das outras pessoas, cristalizando uma imagem pessoal forte que precisa ser reverenciada. Geralmente, pessoas muito vaidosas possuem problemas de autoestima, não pela falta de atenção, mas pela personalidade frágil: basta alguém não comprar sua aparência de vencedor, para entrar em parafuso.

O ser humano é incompleto, traz dentro de si um vazio interior. Mas, quanto mais frágil é sua personalidade, quanto menos ele tem consciência de si, dos seus méritos e defeitos, mais precisa da aprovação alheia. A vaidade é reforçada para compensar um vazio interior aterrorizante. Vaidade é medo, por fim. Medo do fracasso, porque ele nos humaniza, mostra que não somos fortes como um Deus imponente.

Só um indivíduo frágil, sem voz interior, sem consciência, sem vida própria, e ao mesmo tempo, tão dono de si mesmo e vaidoso, pode se dissolver na massa. O “homem-massa” não faz parte de uma classe, mas é uma forma de viver o mundo de maneira peculiar, ao não possuir preparo para o seu autogoverno. Assim Ortega y Gasset define o “homem-massa”:

É o homem previamente esvaziado de sua própria história, sem entranhas de passado e, por isso mesmo, dócil a todas as disciplinas chamadas “internacionais” (…) só tem apetites, pensa que só tem direitos e não acha que tem obrigações: é um homem sem obrigações de nobreza.”

O “homem-massa” produz a cultura do repúdio. E a cultura do repúdio é a cultura do esquecimento, pois começar sempre de novo é esquecer daquilo que já se foi. Expostos a mudança incessante, e a perda de referências, o indivíduo fica confuso, entregue aos impulsos. Sua personalidade passa a ter a mesma constância de uma geleia, e o seu cérebro vira uma pasta, onde nada mais se distingue. As vivências passadas não se tornam experiências, porque não há mais aprendizado. O que se viveu deve ser esquecido em prol do novo acontecimento. Sem a reflexão do ocorrido, o homem não se torna maduro, pois não acumula mais experiências.

Por não possuir memória e experiência, o “homem-massa” não atribui a si um valor, não se enxerga como uma personalidade; mas sim, como um autômato de prazeres, fantasias, e impulsos imperiosos (encanto consigo mesmo), tornando-se parte integrante de um coletivo, já que todos os humanos são legalmente iguais. Afirma Ortega y Gasset: “Ingenuamente, sem ser arrogante, como a coisa mais natural do mundo, tenderá a afirmar e qualificar como bom tudo o que tem em si: opiniões, apetites, preferências ou gostos”.

O homem maduro, ao contrário, possui uma íntima necessidade de apelar para uma norma superior, colocando-se a serviço dela, exigindo mais de si do que dos outros (enquanto, o homem-massa nada exige de si), ao não se colocar como medida da verdade. O “homem-massa” é violento em suas intervenções, porque se julga o umbigo do mundo. A sua socialização foi efetuada pela rígida identificação com um grupo de ideias, contentando-se com elas, sem precisar da contínua busca intelectual. Sobre isto, Ortega y Gasset nos diz: “Não é que o vulgo pense que é excepcional e não vulgar, mas sim que o vulgar proclama e impões o direito da vulgaridade, ou a vulgaridade como um direito”.

O ser humano frágil, diluído na massa, crê ser possuidor de ideias, mas não sabe formá-las, só reproduzi-las como meio da sociabilidade grupal. Um novo tipo de homem, que nega as certezas, mas que se mostra decidido ao impor suas opiniões, limando de sua convivência o que não se adequa a elas. Ergue-se como representante da liberdade, mas atua de maneira dogmática, direta, impulsiva, e – não raro – violenta. Este homem diluído na massa é herdeiro direto do projeto moderno, mesmo que contra ele, possa se voltar. Por isto, fala em nome da diferença, ao mesmo tempo em que, na prática, odeia-a profundamente. O “homem-massa” comporta-se como uma “criança mimada”, pois possui a impressão radical de que a vida é fácil e simples, sendo furtada e limitada por poderes externos a ela. Por isto, pensa que pode em qualquer lugar se comportar como se estivesse em sua casa, fechando-se a qualquer instância ao impor sua opinião vulgar.

O mundo moderno também corresponde ao advento da banalidade, da vulgaridade, e da massificação da cultura. A banalidade é a imanência total da humanidade em si mesma, o império da trivialidade, criando dois tipos de prazeres: a exaltação e a monotonia. A vulgaridade é a cópia barata, a simulação daquilo que não se é. O vulgar se instala no lugar daquele que imita e pretende a ele equiparar-se. Nisto, mora a falta de estilo do burguês, que ao tentar imitar as maneiras e vestimentas do nobre, substitui a simplicidade e elegância pelo exagero, resultando num pastiche exemplar. Sobre a massificação da cultura, diz Ortega y Gasset: “A característica do momento é que a alma vulgar, sabendo que é vulgar, tem a coragem de afirmar o direito da vulgaridade e o impõe em toda parte”. As qualidades humanas foram equiparadas (como duas mercadorias), diluindo todo destaque pessoal, e brilho singular.

Perdido num mundo fragmentado, sem a profundidade e constância do reconhecer-se no outro, sem identidade, e sem a experiência transcendente que lhe dá um senso e sentido superior; o homem (hiper)moderno mesmo desfrutando de sua liberdade, sente-se frágil diante dos outros e do mundo, pela ausência de laços (os consultórios de terapia estão cheios, aliás), fruto da vaidade, da onipotência e do ensimesmamento deste sujeito. Para suprir essa ausência, ele procura uma identidade num reconhecimento abstrato. Não raro, este “homem-massa” secularizou os antigos laços reais e profundos, substituindo-os pela ideologia (seja como senso comum, ou como sistema de ideias), fazendo dela seu laço de sociabilidade e identificação grupal. Um laço tão frágil como nossas certezas sobre o mundo material. Por isto, vivemos numa grave crise de personalidade. E os políticos, em geral, hão de ser incapazes disto negar. Indivíduos de verdade, estamos a sua procura!

Acontece que, a conquista da sua voz interior, de sua personalidade, do desejo cultivado de bem-aventurança para além das fantasias de nossos impulsos, não exige apenas um profundo debruçar-se sobre si mesmo, mas isto, num processo de encontro com o outro, rico e gerador de experiências. Onde o “eu maduro” só se forma ao reconhecer-se em outro.

Mas, como perdemos a capacidade de transformar vivência em experiência, nos acostumamos a viver uma vida oca, fútil, frágil, sem sentido, sem significados, e agora, desorientada, sem comunhão. Num mundo com pessoas tão pobres de experiência, não há senso possível de responsabilidade. Pois, esta exige um indivíduo consciente de seus atos, e dono de sua voz interior, que lhe acusa quando necessário.

Os homens deixaram de pensar sobre a ambivalência da vida e de ter perplexidade diante do complexo mundo moral e de seus limites. Pelo contrário, agora todo e qualquer limite precisa ser suplantado em nome do princípio do gozo e do dever imperativo de felicidade. Neste mundo, pensar na substância das coisas virou um pecado.

A própria gramática política perdeu qualquer sentido e referência. Por exemplo, a esquerda radical agora, brada contra o progresso, ao mesmo tempo em que, age como um iluminista deliciando-se com o deslocamento contínuo de uma aparente luta que, vai vencendo contra seus “inimigos”, no plano cultural. Na base, é um raciocínio progressista, com o deslocamento do sentido das palavras, pelo acúmulo de conquistas.

O debate nas redes sociais também perdeu qualquer sentido, se é que, um dia teve um. Já não se trata mais de debater um tema espinhoso e cheio de nuances e ambivalências, com frases-feitas, jargões de manuais vulgares, ou coisas do gênero. Agora, o debate é feito com o puro sentimentalismo grupal, de maneira histérica, com “memes”, e frases tautológicas que nada dizem, como: “sabe de nada, inocente”. Já não se pode mais distinguir o original da paródia. Uma manada de “homens-massas” aguarda ansiosa para saber da verdade de seu grupo, a espera do grande momento: atacar o adversário. Sem qualquer reflexão, eles buscam por bodes expiatórios que, em tese, impediriam o esperado paraíso sob a terra. Já se foi o tempo onde não era raro ver indivíduos pensantes, de personalidade, sobressaindo-se sobre seus grupos, reafirmando sua posição, e demarcando seu pensamento.

Seja como for, o projeto moderno é baseado em liberdade, mas especificamente na libertação de um homem; mas, tudo nessa vida possui dobras. O que era pra libertar, também domina. O homem queria se conservar melhor neste mundo, com conforto e segurança, e agora vive o pior tipo de escravidão: a do próprio impulso. Estar submetido perenemente aos jugos de sua vontade imediata é já viver o inferno, sem precisar de crença alguma. Ao tentar dobrar a realidade às suas fantasias e impulsos, como a técnica faz com a montanha, o homem permanentemente revoltado enuncia suas crenças contra o mundo liberal, mas ele nada é além desse espírito moderno indo ao seu limite. De nada adianta a liberdade, sem a unidade da experiência.

Poder-se-ia estranhar essa identificação do homem revoltado com o ensimesmamento, já que ele – em tese – luta pelo bem-comum, arrisca sua integridade física, abre mão de conforto, segurança e de sua vida privada, para lutar pelos outros. Hai de tremer diante de uma injustiça, este é o lema do homem indignado. Com certeza, há algo de muito belo nisto. E mais: neste impulso desesperado, certamente mora um suspiro final, diante do sentimento de morte de uma vida autêntica, que lhe tiraram, e da qual, ele é a máxima e ambígua expressão. Entretanto, é um tipo de beleza perigosa que, até agora, sempre terminou em cabeças cortadas, gulags, tiranias, e perseguições.

Do que se trata, então? De desmistificar a oposição: “coletivo” versus “individual”. A revolta, a rebeldia, a transgressão, a resistência, são partes do mundo, que sempre existiram e hão de existir. Todavia, o homem revoltado é aquele que se sente permanentemente insatisfeito com o mundo em que vive, estando sempre indignado, querendo dobrar a própria realidade ao seu desejo (a ideia de revolução).

O homem revoltado não defende uma causa específica, ele vive e se identifica com várias causas, dando-lhes unidade, impondo-as sua pessoalidade. Assim, para ele, não se trata de defender, por exemplo, a melhora do transporte público em sua cidade; mas, de vivenciar essa luta, identificar-se com ela, entregar sua paixão pessoal e seus impulsos, em nome não da causa, mas de uma fantasia histérica, fruto de um impulso transbordante para fugir da mediocridade da vida burguesa, tomada pelo tédio. Para realizar essa fantasia, ele entrega seu coração. Ao mesmo tempo em que, ele pode encontrar-se com o outro, ajuda-lo, e contribuir com alguma coisa, ele o faz pensando em si, e em sua realização pessoal, gerando um encontro enganoso e efêmero, que dura tanto quanto o auge de sua entrega. Isto no melhor dos casos, em outros, ele fala em nome do “bem-estar” comum, quando, na verdade, está tutelando o resto da sociedade. Nisto, consiste a dialética entre o individual e o coletivo, simbolizada em todas suas tensões, na figura do homem revoltado. Entretanto, é cada vez mais difícil distinguir nos movimentos de resistência e revolta, a figura do homem revoltado daquele que está preocupado em resolver uma questão específica.

Acontece que, na base de formação desse homem, encontra-se a acídia, ou seja, o cansar de si mesmo, imposto pela apatia do cotidiano do mundo moderno. Cansados de segurança e conforto (não por acaso, os revolucionários sempre saem das classes mais abastadas ou médias), entediados, e sendo formados para ser a medida do mundo e da verdade; estes indivíduos frágeis sonham com uma harmonia perdida, esplendor que, para se realizar, só pode ser também um “sonho de domínio”, numa tentativa de comunhão para se auto-afirmar desesperadamente.  

Por isto, os regimes totalitários sempre explodiram o cotidiano, e contra a banalidade da vida burguesa, implantaram o estado de terror e guerra contínuos. Afirma Pascal Bruckner, sobre a contradição entre as promessas de “fervor sublime” e a lógica de rendimento do sistema capitalista:

“A grande utopia dos anos 60, como vimos, foi decretar o prazer perpétuo, o estado de felicidade permamente. Tratava-se de cristalizar o escoamento desordenado dos dias em um só instante de fervor sublime, de imergir o cotidiano na efervescência. Utopia magnífica e terrível da qual os situacionistas foram os principais porta-bandeiras. Mas os inimigos do tédio, repetindo-nos que “os homens vivem em estado de criatividade 24 horas por dia” (Raoul Vaneigem) adotam a respeito do prazer uma lógica do rendimento igual à do sistema industrial. Nos dois casos é preciso maximizar, submeter tudo ao imperativo da rentabilidade. As volúpias, assim como a produção, não poderiam tolerar o menor intervalo. É por esta mesma razão que os partidários da intensidade manifestam a respeito desta existência imperfeita a mesma animosidade que os cristãos de antigamente a respeito da condição humana”.

A revolução é um ato contra a memória. Ela rompe com a tradição sem superá-la, fadando-a ao fracasso e à violência. O que distingue o homem do animal é sua capacidade de reter memória, como sabia Ortega y Gasset, “romper a continuidade com o passado é querer começar de novo, é aspirar a descer e plagiar o orangotango”.

Afinal, devemos criticar ou apoiar o mundo moderno? Falso dilema. Devemos avaliar perdas e ganhos, para com isto, reconquistar nossa experiência. Da ambivalência, não se pode fugir. Não há motivos para apologia ao mundo que construímos, seja ele qual for; tampouco, há razões para tentar destruí-lo. Na verdade, possuímos menos controle sobre a realidade, do que acreditamos ter no mundo moderno, onde tudo parece ser tão perecível. Somos mais irrelevantes do que nossa vaidade quer crer.

5.

É possível amar no mundo hipermoderno? De cara, é possível amar em qualquer época do mundo. O amor é um elemento permanente da vida humana, que se exterioriza de diversas maneiras, mantendo ainda assim, uma unidade. A questão é que nossa época mina as bases que possibilitam a entrega nas relações afetivas. Sem sair da frente do espelho, não é possível encontrar-se de verdade com o outro, e descobrir a si próprio.

As pessoas são cada vez mais senhoras do seu tempo, usufruindo da liberdade para escolher como irá preenchê-lo. Apesar das obrigações, no estudo ou no trabalho, estas não chegam nem de longe, perto das que já tivemos, como a responsabilidade com uma comunidade, o respeito para com um bem maior, etc. Ainda assim, essas pequenas responsabilidades são tidas como um peso escorchante para muitas pessoas, que sem dar-se conta, viraram escravas da própria vontade.

Ao mesmo tempo em que, as pessoas se tornaram mais vaidosas, mimadas, fúteis, e tratam seus sentimentos de maneira ainda mais perecível; cresce, quase como um desespero, a ânsia pelo encontro de um grande amor. Sentindo a ausência de algo com verdadeira profundidade, o frágil indivíduo hipermoderno lança-se ao mundo em busca disso, fazendo do amor uma tábua de salvação, da qual a generosidade – que lhe é marca – impede esse encontro desesperado. O fruto dessa dialética entre ausência e ensimesmamento, é o fortalecimento das fantasias, ilusões, ou seja, das afeições imaginárias.

Pior e mais exemplar deste mundo do que a descartabilidade dos “ficantes” é a sucessão de paixões fluídas. Se no primeiro caso, temos a efemeridade do corpo e do sentimento, onde – de partida – proíbe-se a entrega e o envolvimento; no segundo caso, temos a efemeridade do amor, com paixões relâmpagos, que tudo eram num dia, e nada se tornaram no outro. Da entrega absoluta e imediata à “desentrega”. Em ambos os casos, desaprendemos a respeitar o sentimento alheio; pois, tratamos nossos semelhantes como “uma porção de comida rápida”, previamente embalada a espera do contato rápido, pronta para nos alimentar brevemente.

Um sintoma disto é que em busca deste sentimento, “de que algo infinito foi perdido” e que precisa ser prontamente recuperado, passamos a encarar a inveja, a dor, as lágrimas, não como elementos constitutivos da vida humana em sua ambivalência, mas como obstáculos que precisam ser eliminados. Mas, na vida, tudo é feito de dores e alegrias, lágrimas e risos. Só na boca de qualquer idiota, as frases já estão feitas: “seja feliz!”, “busco leveza e alegria”, etc.

Longe de retomar a experiência, este homem que suspira lentamente por algum momento de profundo, seja por paixões fluídas ou num gozo desesperado com um desconhecido, é guiado pela falta de constância. Nem mesmo temos mais tempo para cultivar nossos desejos. Pelo contrário, dominado pela fantasia da vez, que no dia seguinte, já se desfaz, agimos de maneira impulsiva, esperando o cumprimento dessa vontade, tão firme quanto à constância de uma geleia. Se o amor que queremos dar é efêmero, o nosso ser também o é.

No centro deste homem sem responsabilidades, personalidade, constância, encontra-se a vaidade. Mesmo quando ele pensa estar agindo com alteridade, ao ansiar um encontro com o outro, é tomado, na verdade, por uma fantasia própria que deseja se cumprir. Ao não ver tal promessa cumprida, ele revolta-se contra quem isto lhe negou, e age de maneira arrogante e mimada, mostrando que de amor: nada sabe.

A “outra face da moeda” deste homem diluído encontra-se na figura do Don Juan pós-moderno (que obviamente, também serve as mulheres), que possui como propósito o encontro com a humanidade, simbolizado no descarte afetivo. Hoje, não mais você; amanhã, continuo com aquela outra; depois de amanhã, tentarei a próxima que irei conquistar. Como se frequentasse um grande mercado afetivo, tendo em suas fantasias e quereres uma moeda, esta triste figura fez de si e do seu afeto uma “mercadoria universal”, onde as pessoas são trocadas com a mesma desenvoltura e facilidade com que se faz com as coisas no mercado. Não passa de um pobre diabo assustado, vivendo “em baixo da cama”, com medo da entrega e da realização do amor no mundo, porque longe da certeza, estes dois elementos sublimes só nos trazem a incerteza, a possibilidade, o horizonte da dor, e não raro, do sofrimento e prazer mais ambíguo e conflitante que se pode ter como experiência. E nesta falta de compromisso e respeito, cristaliza-se a grande feiura afetiva de nossa época.

Em O Banquete de Platão, Eros aparece como um daimon, intermediário entre deuses e homens, criador de laços entre eles. Eros é filho de Póros (o estratagema) com Penia (a penúria), e que por ser concebido no dia de nascimento de Afrodite, ama o belo. Eros é carência que busca plenitude. Por isto, deseja o profundo das coisas. Se fosse completo, não a amaria, pois já a possui. Se fosse puro corpo, julgar-se-ia completo e nenhum reencontro real poderia desejar.

Ao contrário da maleabilidade das fantasias, o amor é durável, perene, imortal. O amor é a magia de um mundo desencantado, é o desinteresse de um mundo de interesses, é a inutilidade no mundo útil do cálculo racional dos adultos. Amor é um desejo cultivado, e não uma fantasia. No entanto, será que ainda existe espaço para o amor numa vida em que se cultua cada vez mais à coisificação do prazer? Num tempo hedonista, dominada pelos sentidos, qual a pretensão do amar?

Acontece que, o amor não é uma relação pragmática, um encontro entre duas pessoas, uma relação sacramentada, um namoro ou um casamento. O amor é um sentimento profundo e amplo: é fazer da sua liberdade, o desejo de ver os outros.  O amor encontra-se na solidariedade da criança que divide o seu lanche no colégio, no olhar fraterno do velho avô com o seu novo neto, no cuidado dos pais com seu filho pequeno e indefeso, no sexto sentido da mãe, nos olhares apaixonados dos amantes, no encontro do professor que ajuda seu aluno, no perdão da mãe que vai visitar o seu filho na cadeia. O amor é desinteressado, não quer mudar o mundo. Ele é trivial, pois enxerga o outro em sua inteireza, pois, independe de virtudes e defeitos, perdas e ganhos. Amar é enxergar o mundo com solidariedade, e não como uma criança mimada querendo adapta-lo aos seus impulsos e fantasias.

Neste sentido, Camus é preciso quando demonstra a incompatibilidade entre o amor e a revolução. O homem revoltado ama um homem que ainda não existe, nem irá existir, e que não passa de uma projeção de suas fantasias. Ao contrário, o amor é uma expectativa real de troca, uma entrega pelo que não se possui, estando dessaturado de vontade, individualidade e vaidade; mas que, espera a reciprocidade. Ou seja, um ato de fé. Porque, o amante busca no amado a essência que não possui. Nisto, supre a falta e se torna pleno, de modo dialético, recíproco.

Portanto, a postura de amor diante do mundo exige o reencontro com a experiência. Só com a unidade do nosso viver, podemos diante das ambivalências da vida, nos procurar no encontro com o outro. Recuperar a dignidade das relações afetivas é preservá-la da falta de sentido deste mundo efêmero, caótico, descartável. É fazer do corpo uma fortaleza, morada viva, e não um escravo do impulso. David Foster Wallace sabia disto quando dizia que “a liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros – no cotidiano”. Essa é uma liberdade real, humana, generosa, amante, que merece ser vivida.