quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Marina e o Velho Entulho Autoritário na América Latina.


Texto originado de uma resposta ao post do Rodrigo Cássio: https://www.facebook.com/rodrigo.cassio.90/posts/10202076071696315
 
I

Em si, o poder – com seus aparatos – é uma forma potencialmente capaz de controlar a sociedade e os indivíduos. De tal forma que, quem o detém quer sempre mantê-lo. Para o detentor de este poder não se tornar um tirano é que existe democracia, Estado de Direito, separação de poderes, um poder freando o outro, checks and balances. O poder precisa ser limitado. Mas, a realidade é ambivalente, e a gestão da coisa pública poder ser preenchida por vários ‘sim’ ou ‘não’, necessitando do revezamento no poder de ideias contrárias.

A essência da democracia moderna é a existência de correntes ideológicas opostas e o seu rodízio no poder. De modo que nenhum governo poderá modificar a sociedade de tal maneira, que o outro não possa desfazer. Já que ninguém tem a resposta para todos os problemas. Ninguém é salvador e trará o paraíso em terra. Logo, a ordem democrática exige um equilíbrio tensional, onde o revezamento de poder naturalmente ocorre.

 
A sociedade pode achar que por hora é melhor um governo mais forte, que aja mais na economia, com políticas públicas de distribuição de renda, mais tolerância com outras culturas; e que por hora, é a vez de trocar, por um governo que diminua impostos, dê mais liberdade para o indivíduo decidir a sua vida, e que CONSERVE a ordem que ORIGINOU esta sociedade, freando modificações radicais que a transformem, levando a anomia. Esta é a sabedoria da democracia. Sem este revezamento que contempla a ambiguidade dentro da própria ordem NÃO PODE haver normalidade democrática.

É por isto que há séculos Democratas e Republicanos se revezam no poder nos Estados Unidos; Conservadores e Trabalhistas na Inglaterra; Democracia Cristã e Social-Democracia na Alemanha; UMP e Socialistas na França, etc. São ideias opostas de sociedade e de se gerir a coisa pública. Não são ideias extremas, pois não rompem com A ORDEM democrática. Republicanos e Democratas lutando pela presidência não são dois extremos lutando por um cargo, mas duas visões opostas que dão unidade na diversidade a ordem democrática e constitucional. Em qualquer país com NORMALIDADE DEMOCRÁTICA há sempre um partido ou coalizão de centro-direita e outro de centro-esquerda. O que não há no Brasil há décadas. Não só na política partidária, como naquilo que dá sustentação a esta: os formadores de opinião da sociedade (professores, jornalistas, etc.).


Por isto, continuísmo em política é exatamente o oposto de moderação e prudência. Moderação não é um meio-termo entre opostos, tampouco, a dissolução das polarizações. Moderação não é um meio-termo abstrato, sem sentido algum (isto é nossa tradição eclética mistificadora). Moderação política é o entendimento da UNIDADE NA DIVERSIDADE da ORDEM. 

A mudança de poder não significa ruptura, mas também não significa uma continuidade substancial. O povo brasileiro desejou mudança no fim governo Fernando Henrique, quais foram às opções oferecidas a ele, e quem a imprensa vendeu como mudança? Lula, Ciro e Garotinho, todos com a mesma concepção de estado. O governo FHC foi muito mais de esquerda do que o governo Clinton na mesma década ou o do que o governo de Fernando González na Espanha. 

O povo quer esta mudança dentro da ordem, mas quem representa esta mudança não pensa substancialmente diferente. Pois, praticamente não há colunistas nos grandes jornais de centro-direita, professores universitários de centro-direita, livros de centro-direita, radialistas de centro-direita, etc. É óbvio que é uma democracia há meia sola, onde o primeiro que aparece pra defender a privatização da Petrobrás é taxado de extremo. Não pode existir democracia sem a presença no debate público dos dois lados, sem esse revezamento no poder.

II

Hegel, adotando a perspectiva divina, queria nos dizer que a unidade da história humana é a manifestação do espírito. O absoluto se realiza na história, e esta unidade dos fatos é a própria autoconsciência do Hegel. A mistura das concepções da esquerda hegeliana, com a teologia da libertação, e com certa tradição colonial estatista, formam este entulho autoritário, que chamamos de esquerda na América Latina.

E por sua origem, o Partido dos Trabalhadores (PT) tem vocação autoritária, independente de fazer alianças pragmáticas ou aceitar a economia de mercado (esta agora, dependente do Estado em seus pontos cruciais). E Marina, que formou sua carreira política neste PT e na TL, mantém todo esse entulho, não no conteúdo (depois abordarei este aspecto), mas na forma. O mesmo tom histérico, messiânico, sintetizador da história humana, que sempre teve o PT.

Alguns pontos que exemplificam isto:


1) A própria noção de Estado da Rede Sustentabilidade é parecidíssima. Marina e a sua "nova política" reivindica: "é necessário construir um Estado capaz de mobilizar a sociedade para criarmos um país sustentável" (trecho extraído dos seus eixos de governo e que permeia todo seu sentido). É uma proposição de partida aberrantemente autoritária: a) um Estado que quer mobilizar a sociedade para de ANTEMÃO dizer o caminho que ela deve seguir (a 'sustentabilidade' proposta pela Rede) é autoritário e não pode ser aceito de maneira alguma; b) o Estado para ela é um MEIO para atingir uma FINALIDADE; c) o Estado se torna guia da sociedade para leva-la ao projeto desejável do representante eleito; d) você se apodera do aparelho estatal e o utiliza para transformar a sociedade; e) quem deve formar o Estado é a sociedade civil, e não o contrário; pois, a sociedade não pode eleger um governo para lhe transformar, pois isto é a própria supressão da autonomia. 

2) Discurso de Marina no Recife neste final de semana: "Não estamos aqui para derrotar Dilma ou Aécio, mas para fazer do Brasil vitorioso. Não vamos desistir do Brasil". Meu Deus do céu, como ter paciência com essa retórica barata? Será que ninguém percebe que um indivíduo NÃO pode ser a SÍNTESE de um todo? A vitória de Marina NÃO é a vitória de um país inteiro (formado por diferentes e difusos interesses), mas TÃO SOMENTE a vitória daquilo que ela fará enquanto detentora do poder. Não se trata de tornar uma entidade abstrata, como um estado-nação, vencedor; mas de saber o que ela fará, o que ela representa, e se isto é a vontade da maior parte dos eleitores. E se for, é apenas a vitória do SEU projeto. É de uma megalomania própria de quem tem a cabeça de um tirano considerar a si próprio a ENCARNAÇÃO e a UNIDADE do todo, dissolvendo todos os contrastes e ambivalências como se eles não existissem.

3) E a sua democracia de “alta intensidade” vem justamente para suprir a “crise” da democracia representativa, fazendo a população participar intensamente da vida pública. A esquerda radical sempre propôs a explosão do cotidiano das pessoas, pela politização dessas vidas. Qualquer candidato que proponha governar “trazendo a sociedade para discutir as pautas do congresso” (em português claro: governar através de grupos de pressões) é PERIGOSO, visceralmente AUTORITÁRIO, e tem a cabeça de um TIRANO. Ele se esquece de que os votos que lhe elegeram foram exatamente os mesmos que elegeram cada deputadinho. Não cabe ao eleito julgar a vontade soberana do povo. Um presidente que propõe governar através de grupos de pressões já está dizendo que não respeitará a representação popular que não seja dele.  


4) A “nova política” não passa do velho jeito de certa esquerda autoritária e demagoga de se apossar da democracia representativa para entrega-la a grupos de pressões, ongs, que não representam um 1% da população brasileira. Não precisamos de “nova” ou “velha” política, mas apenas de políticos verdadeiramente democráticos, sinceros, autênticos, com uma mínima noção de moral e senso de dever, e que respeitem a coisa pública. 

5) Nada é mais velho na política brasileira do que propor uma "nova política", que, na verdade, nunca tem substância, não passando de antipolítica com trajes demagógicos. Sempre se criam as figuras que irão redimir toda política nacional. Como sempre, TODOS eles eram MUITO piores do que aqueles que acusavam. Por que? Por uma razão muito simples: o moralismo é um mecanismo compensatório da degradação do senso moral natural que temos, substituindo-o. Quem se coloca na posição de julgador moral de toda política, de toda sociedade, de todo o país, o que por fim, é na verdade, o julgamento de toda humanidade; não tem quem o julgue-o. Perdeu sua própria consciência, pois deslocou sua experiência para o julgamento dos pecados alheios, como se ele fosse impecável, santo, predestinado. Quem desta maneira pensa, e vem com um discurso antipolítico (que pôr fim é ódio a prudência e aos próprios limites da realidade) contra "tudo que aí está", independente de fazer acordos pragmáticos e ser um pouco menos estatista na economia, é visceralmente autoritário.


Respostas complementares:

1) Em nenhum momento eu sugeri que ela iria nos impor uma tirania. Não me faça de espantalho. O que eu disse e repito é que ela pensa de maneira análoga a um tirano. Como o PT também. Não vivemos numa tirania, e o PT é um partido cronicamente autoritário. A forma do discurso de Marina também é. Não confunda as crenças e desejos do indivíduo e seu coletivo, com as condições reais, práticas e materiais que eles irão encontrar. Se você discorda disso, me mostre suas razões, nem vem na base desse rótulos de 'incisivo', etc. Agora se vocÊ não acha que esta "democracia de alta intensidade" (democracia plebiscitária) é na base autoritária, me diga a razão, ué. Por que fugir do debate de suas propostas?

2) Não é a democracia que obriga a realidade se comportar de tal maneira, é o inverso. Ter um embate entre os que estão mais preocupado em manter a ordem e a coesão social e os que estão mais preocupados com algumas mudanças mesmo dentro desta ordem é uma imposição natural, hoje e sempre. Uma dialética entre ordem e transgressão. Não se criou centro-direita e centro-esquerda por imposição de fora, normativa, mas pela própria imposição dessa realidade.

3) Neste sentido, falar em 'singularidade' brasileira como forma de legitimar a quase total ausência da direita no debate público brasileiro é um artificialismo sem fim. Pois, esta própria realidade está se IMPONDO a nossa democracia manca. A população é maciçamente contra legalização do aborto, da maconha, não aguenta mais essa esculhambação em todos os lugares, e quer diminuição da maioridade penal. A Rede e o PT são contra tudo isto. E, no entanto, o segundo turno pode ser Dilma x Marina. Então não é ausência de LASTRO REAL, substância para ter um partido de centro-direita. A própria realidade está querendo obrigar a isto, então não tem isso de forma de fora que precisa ser importada, imposto a ninguém. Achar que a ausência de um dos lados da democracia no debate público é singularidade cultural, por favor...

4) O que acontece não é a AUSÊNCIA de substrato para que exista um partido de centro-direita, mas a total exclusão dessas ideias nos meios públicos, entre os formadores de opinião, na formação das classes letradas, etc. É uma questão de ocupação de espaços, autoritarismo, etc. As pesquisas de opinião mostram que a população é em sua maioria conservadora. E quem vai pro segundo turno é o PT e a Rede/PSB. É óbvio que não falta sentido para um partido de direita, MAS MEIOS DE PODER NO DEBATE PÚBLICO.