I
Closer – Perto Demais exala o sofrimento humano, mas o enredo não
trata apenas do amor fluído, precário, mas da falta de domínio sobre os
impulsos, na fugacidade da vida. O que fazemos diante de um encontro da alma?
Reconhecemos? Tentamos? Largamos uma grande e profunda oportunidade pelo prazer
mais tórrido? Amor pela paixão? A responsabilidade – o peso, a dádiva, e o
compromisso – de fazer uma mesma escolha sempre diante de milhares de possibilidades.
II

III
A juvenil beleza de Alice era, ao
mesmo tempo, ardilosa e encantadora. Queria, enquanto não tinha. Sem o elemento
sedutor, sentia-se vazia. Era o seu carro-chefe, sua personalidade ambígua e
ferina. Predadora... De si, acima de tudo. Ao fracassar na sedução,
desatinou-se em amar. Dan foi um ponto fora da sua curva: o fracasso humano.
Foram instrumentos, não finalidade. Mas, largar tudo é da sua natureza. Destruía
aos poucos sua vida, ao amar em outros: a insuficiência. Sua beleza era um
chamariz que flertava com a sedução da ausência. Voltou-se para sedução após o
término prematuro com Dan. Consta que, todos os homens amavam as mentiras que
saiam por esses doces lábios. Resistir aos encantos das sereias nunca foi
tarefa das mais fáceis. Deixou de amor Dan, no exato momento em que ele começou
a amá-la de verdade, como num impulso primitivo de sua natureza.
IV
Alice e Dan nunca ultrapassaram a
vaidade, e por isto, mostravam-se tão idênticos. Um encontro de almas
profundamente parecidas. Pode-se sentir isto ao primeiro olhar. Eles
perceberam. Nunca se soube o que era real ou fantasia naquele amor. Enquanto os
instintos de ambos, e suas personalidades complexas e catalíticas, não fossem
domadas pela consciência moral arduamente construída, nunca se poderia saber.
V
Por sua vez, Larry era um homem
prático, dominador, mas não se engane: era um astuto interprete da mente
humana. Não se referia à alma, transcendência, fantasia, mas da crueza mais
prática, desencantada, e certeira, desse vale de lágrimas que é a vida. Por isto, depositava poucas expectativas,
perdoava, e sabia qual ação deveria ser tomada. Desde que, lhe beneficiasse.
Não espere dele, enquanto adversário, grandeza. Em contrapartida, Larry será
sempre amado a meio palmo. Seu mundo não tem encanto, mas rugido e promessa de
proteção. Sua alma nunca conhecerá o amor profundo e intenso da alma, mas seu
corpo rapidamente se deixará levar pela obsessão e vingança. Larry tinha Anna –
e a vida prática de casados – como obsessão. Alice foi sua vingança. Ao que
parece, teve muitas “vitórias de Pirro”
durante sua vida.
VI
Anna era uma artista melancólica.
Sua melhor foto não poderia deixar de ser a de um rosto angelical chorando, em
momento de dor profunda. Causado por ela, afinal. Uma produção artística formidável. Seu charme
era discreto. Seu fogo era brando. A culpa era seu abrigo. Precisava da
infelicidade para ter certeza de quem era, e ficar bem consigo. Um círculo
infernal em ser a si mesma.
VII
Os diálogos entre Larry e Dan são
os mais impressionantes e profundos do filme. Não só pelo peso profundo da
verdade, mas pelo fato, dos adversários – e opostos –, de certa forma,
complementarem-se. Dan acusa a simplicidade de Larry: “você acha que o amor é
simples”. Larry acusa a irresponsabilidade de Dan: “você não entende o mais
importante do amor, por que você não sabe o que é compromisso”. Sem a verdade,
somos animais, pensa Dan. Complemento: mesmo com a verdade, ainda somos
animais. E os impulsos comprovam. É a consciência moral, a culpa, o
compromisso, a racionalidade, mas também, a mentira, o vício, o erro, que nos
diferencia como humanos. Em síntese, a ambiguidade.
VIII
Qualquer pessoa que tenha uma
personalidade complexa reconhece imediatamente um encaixe fulgurante, que ultrapassa
o corpo e a materialidade. As cenas inicial e final do filme são impactantes
por que nos coloca para fora da banalidade, quando todo sentimento afetivo está
contaminado pela mais asfixiante mesquinharia, e pelo impulso mais primitivo.
Esse nexo entre o banal e o fundamental, o superficial e o profundo, e a dor
que daí se segue, é a grande riqueza do filme. Não há grandeza nas lições do
filme, mas dor exasperante diante da carência de torna-se algo na elaboração do
seu ser.
IX
Algumas coisas, de cara, sabemos
que será especial. Ao primeiro olhar. Um reconhecimento indizível. Uma
oportunidade única. Um fardo e uma dádiva. Para o bem ou para o mal, o
resultado sempre é fruto dos esforços e consciência dos envolvidos. As chances
são aproveitadas ou desprezadas
X
Closer – Perto Demais é a síntese da mais rebuscada vaidade, da
falta de voz pessoal, num lugar mental pouco saudável, mas fugaz, humano,
doloroso, onde só sobrou o impulso, e a dor mais fragmentada e profunda de ser.